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segunda-feira, 31 de dezembro de 2012

Feliz 2013


Votos de um Feliz 2013 a todos os leitores que neste primeiro ano visitaram este espaço. Voltamos nos próximos dias com outros textos e poemas.

quinta-feira, 27 de dezembro de 2012

Da força suave

Da força suave

Não te deixes enganar
Pela fraqueza aparente
Daquilo que é forte
Mas que te parece fraco

Pois a água que cai
Também ela parece frágil
Mas mostra a sua força
Quando a enxurrada vem
E poucos lhe resistem

Até a rocha mais dura
Se mostra permeável
Perante a força penetrante
Dessa água qua a muitos
Tão fraca lhes parece

N. Afonso, 28.11.2012

quinta-feira, 20 de dezembro de 2012

O Renascer Europeu


O Renascer Europeu, por Pierre Krebs (tradução minha)

'' Um Marxista Italiano, Antonio Gramsci, foi o primeiro a compreender que o Estado não está confinado a um mecanismo político. De facto, ele afirmou que o mecanismo político é paralelo ao chamado mecanismo civil. Por outras palavras, cada mecanismo político é reforçado por um consenso civil, o suporte psicológico das massas.
  Este suporte psicológico expressa-se por meio de um consenso ao nível da cultura, visão do mundo e ethos. De modo a existir, o poder político está assim dependente de um poder cultural difuso no interior das massas. Na base desta análise, Gramsci compreendeu porque os Marxistas não conseguiam tomar o poder nas democracias burguesas: eles não possuiam poder cultural.
 Para ser exacto, é impossível derrubar uma máquina política sem previamente controlar o poder cultural. Em primeiro lugar, deve ser ganha a aprovação do povo: as suas ideias, ethos, modos de pensar, sistema de valores, arte e educação têm de ser trabalhados e modificados. Apenas quando as pessoas sentem necessidade de mudança como uma necessidade evidente por si mesma irá o poder político existente, agora afastado do consenso geral, começar a desmoronar-se e ser derrubado.
 A metapolítica pode ser vista como a guerra revolucionária travada ao nível de visões do mundo, modos de pensar e cultura.
 É precisamente o nível metapolítico que é o nosso ponto de partida. Queremos assumir os laboratórios do pensamento. Consequentemente, a nossa tarefa é a oposição ao ethos igualitário e ao pensamento igualitário sócio-económico com uma cosmovisão baseada na diferenciação: isto significa uma ética e uma teoria sócio-económica que respeita o direito a ser diferente. Queremos criar o sistema de valores e atitudes necessários para ganhar o controlo do poder cultural.
 A nossa estratégia não é ditada nem pelas contingências imediatas da realidade nem pelas agitações superficiais da vida política. Não estamos interessados em facções políticas mas em atitudes perante a vida. Os comentadores continuarão a escrever artigos irrelevantes classificando-nos de '' Nova Direita '' mas também de '' esquerdistas ''. Tais termos são patéticos e deixam-nos indiferentes, porque nem a direita nem a esquerda são as nossas preocupações. Apenas nos interessamos pelas atitudes básicas que as pessoas têm perante a vida. E todos aqueles que estão conscientes quer do perigo Americano quer do Soviético, que entendem a necessidade absoluta do renascimento cultural da Europa, como o anunciador do seu despertar político, que se sentem enraízados num povo e num destino, são nossos amigos e aliados, independentemente das suas visões políticas e ideológicas. O que nos motiva e aquilo porque nos esforçamos não pode ser acomodado dentro das actividades de um partido politico, mas - e insistimos neste ponto - somente dentro do quadro de um projecto metapolítico, exclusivamente cultural. Um programa que fixa novamente para nos tornar conscientes da nossa identidade por meio do despertar da memória do nosso futuro, tal como era. Desta forma, visamos preparar o terreno para aquilo que está para vir.
 Definimos o nosso programa como o renascer total da Europa. Também estabelecemos a estratégia para concretizar este projecto: metapolítica e guerra cultural. Ainda temos de considerar a base e o quadro material dentro dos quais este programa pode ser levado a cabo: o Seminário de Thule, uma Nova Escola de cultura Europeia.
 A tragédia do mundo contemporâneo é a tragédia da deslealdade: o desenraízamento de todas as culturas, o afastamento das nossas verdadeiras naturezas, a atomização do homem, o nivelar dos valores, a uniformidade da vida. Um compromisso exaustivo e crítico com o conhecimento moderno - da filosofia à etologia, da antropologia à sociologia, das ciências naturais à história e à teoria da educação - se executado com o adequado rigor intelectual e parecer metodologia empírica, pode somente contribuir para lançar luz sobre a confusão geral do mundo. É com tais considerações fundamentais que o Seminário de Thule se preocupa. Aberto à vida intelectual e espiritual da nossa época, ainda que crítico de todos os dogmas ideológicos, a sua investigação é baseada num sentido de compromisso com a cultura ocidental. O Seminário de Thule preocupa-se em clarificar as questões básicas no coração do movimento de ideias, em redifinir os conceitos culturais essenciais e a descoberta de novas alternativas aos problemas centrais da época. O Seminário de Thule proclama uma Europa Europeia que tem de se tornar consciente da sua identidade e do seu destino. ''

Fonte: Die Europaeische Wiedergeburt( Grabert, Tubingen, 1982; 82-6, 89)

terça-feira, 18 de dezembro de 2012

Natal e o Solstício de Inverno


Natal e o Solstício de Inverno, por Julius Evola

'' Poucos suspeitam de que os feriados (i.e., os dias santos Católicos) actuais, no século dos arranha-céus, da rádio, dos grandes movimentos de massas são celebrados e continuam...uma remota tradição, levando-nos de volta aos tempos em que quase na alvorada da humanidade se iniciou o movimento ascendente da primeira civilização Ariana; uma tradição na qual, além disso, a grande voz daqueles homens se expressa, mais do que uma crença em particular.
  Um facto desconhecido da maioria tem de ser desde já lembrado; que nas suas origens a data do Natal e a do ano novo coincidiam, esta data, não sendo arbitrária, mas ligada a um evento cósmico preciso, o Solstício de Inverno.
  O Solstício de Inverno é, de facto, a 25 de Dezembro, que é a data do Natal, daí conhecida, mas que nas suas origens tinha um significado essencialmente solar. Isso aparece também na Roma Antiga: a data de Natal na Roma Antiga era a do nascer do Sol, o Deus Invicto, Natalis Solis Invicti. Com isso, como dia do Sol novo- dies soli novi - na época imperial, anunciava o início do ano novo, o novo ciclo. Mas este ''nascimento solar'' de Roma no período imperial, por sua vez, referia-se a uma tradição de algum modo mais remota de origem Nórdico-Ária.
   Do restabelecer, Sol, a divindade solar, já aparecera entre os deuses indígenas, ou seja, entre as divindades de origem Romana, transmitidas de ainda mais distantes ciclos de civilização. Na realidade, a religião solar do período imperial, em larga medida, tinha o significado de uma recuperação e quase um renascimento, infelizmente alterada por vários factores de decomposição, de uma muito antiga herança Ariana.
  Na tradição Ária e Nórdica e na própria Roma, o mesmo tema tinha uma importância não apenas mística e religiosa mas sagrada, heróica e cósmica ao mesmo tempo. Era a tradição de um povo, a quem a mesma natureza, a mesma grande voz de que escrevi, naquela época, a tradição de um mistério de ressurreição, do nascimento do renascimento de um início não somente de '' luz '' e nova vida, mas também de Imperium, na mais alta e augusta acepção da palavra ''.

Julius Evola '' Roma e il natale solare nella tradizione nordico-aria '', in « La difesa della raza » (1940).

quarta-feira, 12 de dezembro de 2012

A chave e a porta






 A chave e a porta

Qundo abres algumas portas
Com a mesma chave
Não penses que essa chave
Abre todas as portas
Nem digas que aquelas
Que não conseguiste abrir
Não podem ser abertas
Por qualquer outra chave

N. Afonso, 27.11.2012




















terça-feira, 4 de dezembro de 2012

Algumas cartas de René Guénon







'' Amen deve certamente relacionar-se com o egípcio Amoun (que, coisa bizarra, dá Numa se se lê ao contrário); o sentido principal parece ser o de mistério, coisa oculta ou invisível; daí deriva Emounah, que significa fé. Em AmeN e AUM, há duas letras comuns em três, A e M, que representam dois opostos ou complementares; N indica o produto dos dois termos, e por isso está colocado depois, enquanto que o U indica o laço que os une, e por isso, situa-se entre eles. Unicamente, os dois complementares não parecem ser considerados desde o mesmo ponto de vista nos dois casos, figurados por símbolos hieroglíficos correspondentes. Existe aí algo que ainda não está muito claro e será necessário que pense nisso de novo para falarmos uma próxima vez. '' (Carta a Guido de Giorgio, L'Instant et l' Eternité.)


'' Alberto Magno e São Tomás estavam vinculados a uma organização hermética, mas é possível que a denominação de '' Rosa-Cruz'' não estivesse ainda em uso nessa época, eu de facto, não creio que possa ter aparecido antes do século XIV. ( Carta com destinatário desconhecido, de 5 de Maio de 1935. Publicada em Etudes Traditionelles.)


'' No que se refere à inicição baseada no esoterismo cristão, tudo o que pode conhecer-se dela é mais de ordem cosmológica e '' hermética'' que puramente metafísica ; isto está relacionado sem dúvida com a mentalidade ocidental, mais do que com o Cristianismo em si mesmo. Seria não obstante pouco provável que nunca tivesse havido outra coisa, mas deve ter estado sempre reservada a um número muito pequeno e não deixou vestígios aparentes; de outro modo, seria de supor que se trata de uma tradição incompleta na sua própria essência; mas o anterior nunca se pôde expressar de outro modo que por uma '' transposição '' dos mesmos símbolos a um nível superior.
-Em todo o caso, relativamente à fundação dos três principados romanos, o simbolismo hermético é de facto evidente, como você diz; e o mesmo em relação a tudo o que diz respeito aos contos e ao chamado '' folclore ''; até é raro, creio, que este simbolismo se haja conservado tão claramente em casos semelhantes... Não pensaria fazer algum trabalho sobre todas estas questões? Sem dúvida valeria a pena, especialmente quando o tema, sobretudo desde este ponto de vista, não deve ter sido muito estudado até agora. ''
(Carta a Vasile Lovinescu de 19 de Maio de 1935. Publicada em Symbolos, nº17-18, Guatemala, 1999.)


- '' O que diz Clemente de Alexandria da Esfinge, confirmando as conclusões às quais vós chegastes, é muito interessante. Parece além disso que não haja uma relação muito directa entre a Esfinge grega e a egípcia, mesmo que seja designada pelo mesmo nome; que pensais vós? - Muitos pretenderam ver na Esfinge egípcia um símbolo quaternário ( combinação dos quatro animais da visão de Ezequiel e do Apocalipse), mas na realidade não está composta visivelmente mais do que por dois elementos, cabeça humana e corpo de leão. Nunca vi nenhum exemplar da Esfinge egípcia alada ,senão unicamente, como variante, esfinges com cabeça de carneiro (símbolo de Amon)''.
(Carta a Ananda K. Coomaraswamy, 2 de Outubro de 1945)


'' Canselliet ( que não é Fulcanelli, mas que se faz passar por seu continuador) não tem certamente nada de um ''mestre ''; além disso, do ponto de vista tradicional, não pode vincular-se mais ou menos efectivamente mais do que a uma dessas correntes desviadas no sentido '' naturalista'' às quais me referi em diversas ocasiões''. (Carta a Eric Ollivier, 26 de Setembro de 1946)


- O essencial, como dizeis, é estar de acordo no fundo. A palavra '' alquimia '' dá lugar, de facto, na maioria das pessoas, à confusão de que falais e várias vezes o assinalei; creio que '' hermetismo '' seria mais conveniente ( ou melhor se poderia dizer '' alquimia espiritual '' para evitar qualquer equívoco). '' Gnosis '' tem um sentido muito mais amplo, e por outra parte, tem o inconveniente de que muitos confundem '' gnosis '' e '' gnosticismo '', o que no entanto não é a mesma coisa. Em relação à '' tradição primordial '', a expressão não seria aplicável nesse caso, pois não se trata na realidade mais do que uma  forma derivada, como além do mais o são todas as que se conhecem na actualidade.
   É muito exacto dizer que o sal é apenas a união do enxofre e do mercúrio, ou não é mais precisamente o produto desta união? A confusão filosófica do ser não-manifestado com o nada é sem dúvida enorme, mas há que precaver-se de que tudo o que os homens são incapazes de conceber ( e o horizonte intelectual dos filósofos modernos está muito estreitamente limitado) , não pode realmente surgir-lhes mais que como o nada ''.
( Carta a Louis Cattiaux, 20 de Fevereiro de 1950)


'' Estamos muito de acordo no que concerne ao sal; mas não me explicou bem que faleis do '' enxofre terrestre '' e do '' mercúrio celeste '': isso não vem tornar a terra masculina e o Céu feminino, frente ao simbolismo tradicional, mais geralmente admitido? ( Digo mais geralmente porque parece que a tradição dos antigos egípcios seja a excepção; mas sabem-se realmente tão poucas coisas dela que é impossível conhecer a razão desta anomalia pelo menos aparente e bastante surpreendente à primeira vista) ''.
( Carta a Louis Cattiaux, 20 de Março de 1950)

Cartas extraídas de '' Sobre Hermetismo '' (Tradução minha)







sábado, 1 de dezembro de 2012

O guerreiro e a cidade




'' O guerreiro e a cidade '', por Dominique Venner ( Tradução minha)

'' Em 1814, no final das guerras Napoleónicas, Benjamin Constant escreveu com alívio: '' Chegámos à era do comércio, a era que deve necessariamente substituir a da guerra, tal como a da guerra teve necessariamente que precedê-la ''. Ingénuo Benjamin! Assumiu amplamente a ideia de progresso indefinido, apoiando o advento da paz entre homens e nações.
 A era do comércio suave substituindo a da guerra...Sabemos o que o futuro fez desta profecia! A era do comércio foi imposta, certamente, mas pela multiplicação das guerras. Sob a influência do comércio, ciência e indústria- por outras palavras, o progresso- as guerras tomaram mesmo proporções monstruosas que ninguém poderia ter imaginado.
 Havia, no entanto, alguma verdade na falsa previsão de Constant. Se as guerras continuaram e até prosperaram, por outro lado, a figura do guerreiro perdeu o seu prestígio social em benefício da duvidosa figura do mercador. Esta é a nova era em que ainda vivemos, até ao momento.
 A figura do guerreiro foi destronada, mesmo quando a instituição militar durou mais do que qualquer outra na Europa desde 1814. Perdurou desde o tempo da Íliada- trinta séculos - transformando-se, adaptando-se a todas as mudanças nas épocas, guerras, sociedades e regimes políticos, mas ainda continua a preservar a sua essência, que é a religião do orgulho, o dever e a coragem. Esta permanência, pelo contrário, só é comparável com outra instituição imposta: a Igreja ( ou as Igrejas). O leitor está chocado! Uma surpreendente comparação! E mesmo assim...
 O que é o exército desde a Antiguidade? É uma instituição quase religiosa, com a sua própria história, heróis, leis e ritos. Uma instituiçaõ muito antiga, até mesmo mais velha do que a Igreja, nascida de necessidades tão antigas como a humanidade, e que agora está a deixar de existir. Entre os Europeus, nasceu de um espírito que é específico deles e os quais- ao contrário da tradição Chinesa, por exemplo- fazem da guerra um valor em si mesmo. Por outras palavras, nasceu de ume religião cívica surgida da guerra, cuja essência, numa palavra, é a admiração pela coragem no rosto da morte.
 Esta religião pode definir-se como a da cidade no sentido Grego ou Romano da palavra. Numa linguagem mais  moderna, é a religião da pátria, grande ou pequena. Como Heitor disse há trinta séculos no livro XII da Íliada, para aludir a um mau presságio: '' Não é por um bom resultado que lutamos pela nossa pátria ''. ( XII, 243). A valentia e a pátria estão ligadas. Na última batalha da guerra de Tróia, sentindo-se ameaçado e condenado, Heitor chorou de desespero com o clamor: '' Ó bem! Não pretendo morrer sem lutar, nem sem glória, nem sem alcançar nenhum feito que seja contado nos tempos vindouros. '' (XXII, 304-305). Encontramos este lamento de orgulho trágico em todas as épocas de uma história que glorifica o herói desafortunado, engrandecido por uma derrota épica: as Termópilas, a canção de Rolando ou Dien Bien Phu.
 Cronologicamente, a linha guerreira aparece antes do Estado. Rómulo e as suas belicosas companhias traçaram primeiro os futuros limites da Cidade e estabeleceram-na pela sua lei inflexível. Por haver transgredido a lei, Remo foi sacrificado pelo seu irmão. Então, e só então, os fundadores raptaram as Sabinas para assegurarem a sua descendência. Na fundação do Estado Europeu, a ordem dos guerreiros livres precede a das famílias. Foi por isso que Platão viu Esparta muito mais próxima do modelo da Cidade Grega do que Atenas. (1)
 Ainda que possam parecer débeis, os exércitos Europeus actuais constituem ilhas de ordem num meio em seu redor que desmoronou, onde Estados fictícios promovem o caos. Ainda que diminuído, um exército permanece como uma instituição baseada na férrea disciplina e participante da disciplina cívica. Por esta razão, esta instituição carrega em si uma semente genética de restauração, não por procurar o poder ou miltarizar a sociedade, mas para reafirmar a primazia da ordem sobre a desordem. Foi o que as compagnonnages da espada fizeram depois da desintegração do Império Romano e tantas outras depois disso. ''

Notas:
1- In '' Les metamorphoses de la cité, essai sur la dynamique de l'Occident (Paris, Flammarion, 2010), baseado na leitura de Homero, Pierre Manent realça o papel das aristocracias de tipo guerreiro na fundação da cidade antiga.

quinta-feira, 29 de novembro de 2012

Inominável

Inominável

Sei que rostos se escondem
Por detrás das máscaras
Que mãos tocam
As cordas invisíveis

Qual a melodia que soa
No final do dia
Os segredos ditos
No escuro do silêncio

Que homens se erguem
No meio da tempestade
Qual a voz que acalma
A criança que chora
Quando o luar brilha
Na noite sem fim...

Qual o código secreto
Que abre o cofre

E os nomes inscritos
No livro da vida
Os rios que nascem
Em montanhas ocultas

Quais os seios que amamentam
A sede de conhecimento
As sementes que germinam
Nos mais férteis campos

E qual a porta que guarda
O templo de luz...

N. Afonso, 27.11.2012


quarta-feira, 28 de novembro de 2012

Cardos ao Sol

Cardos ao Sol

Brilha alto o Sol
No seu esplendor
O dia é fugaz para quem vive a correr
Mas longo para quem é paciente

A estrada é estreita
Para o viajante
Os passos lentos em silêncio
A viagem é árdua e penosa

O tempo gira
Em teu redor
Essa espiral sem fim

Crescem flores no precipício
E espinhos nos verdes cardos

Um manto de névoa
Cobre o topo
De uma montanha
De incertezas

Existe beleza numa
Planície estéril
E algum orgulho
No abismo criador?

N. Afonso, 21.11.2012

terça-feira, 27 de novembro de 2012

Selo supremo

Selo supremo

Derretem os gelos
Os medos e ilusões
Congela a angústia
Depois morre a inércia

Das cinzas da dor
Renasce a força
Um rochedo da vontade

Há um sopro que apaga
As velas frágeis da mentira
Vê como se desfazem
As torres altas da iniquidade

Despedaçam-se ídolos e ideais
Com pés de barro fabricados
Também eles apodreceram
Repletos do bolor da falsidade

Tudo cai à tua passagem
Homens, muros, poderes, ideias
Selo ímpar da verdade!

N. Afonso, 15.11.2012

sábado, 27 de outubro de 2012

Europa patria nostra

Europa patria nostra


Desde tempos remotos
Nesta terra habitaram
Agricultores e pastores
Conquistadores e navegadores

Gentes nómadas e sedentárias
Culturas e línguas várias

Há mais de um século
Que Nietzsche partiu
Antes dele Goethe triunfou
Homero, estás já longe...
E Péricles, o que nos deixou?

A Grécia dos primórdios
De outros mais nos falou
Apolo, Leónidas e Zeus
Dórios, Espartanos e Aqueus

Oráculo de Delfos, Platão, Aristóteles
Entre tantos outros
Que enumerar não vou

Ó Europa, pátria nossa
O teu legado não esquecemos
Nos escombros de agora
Muitos de nós perecemos

Aqui se ergueram sacros templos e catedrais
Mas hoje o que resta, ó venais?

Governaram reis e imperadores
Lutaram plebeus, santos e aristocratas
Brilharam poetas, sábios e guerreiros
Também iniciados e cavaleiros

Cantaram monges e trovadores
Fomos pagãos antes de cristãos
Roma foi até Monarquia
Antes do Império ver o dia

Tantos povos
Por aqui passaram
Neste velho continente
Que em ruínas deixaram

Iberos e Celtas
Germanos e Vikings
Eslavos e Helenos
Deles todos nos lembremos

Preservemos Dante e Shakespeare
Camões, Yeats e Pessoa
Rilke, Leopardi, Holderlin
Olha Eliade em Lisboa!

Junger foi dissidente
Vida cheia e longa viveu
Codreanu legionário
Pelos seus combateu

Também Evola e Guénon
A sua herança nos deixaram

Arda a chama
Da nossa revolução
Não perdoamos a traição.

N. Afonso, 23.10.2012


quinta-feira, 25 de outubro de 2012

Mercados e mercadores

Mercados e mercadores

Dançam cisnes no lago
Ao som de uma celestial melodia
Negoceiam os mercadores ao longe
Perde-se o rasto ao dia

Onde estão agora os deuses,
Mitos, rituais e sacrifícios?
Chegaram há muito os vendilhões
Da honra e da coisa pública

Mercado é palavra santa
Na boca hipócrita dos que a veneram
É falsa a moralidade burguesa
Nos templos há muito instalada

Tudo é para vender:
Pátrias, terras, ilusões
Povos, dignidade e acções
É o modo liberal de viver

A idolatria do vil metal
Desfaz sonhos e esperanças
A ganância não tem igual
Haja ouro nas suas lembranças

N. Afonso, 20.10.2012




terça-feira, 23 de outubro de 2012

Faina interior

Faina interior

Sussurras-me uns versos suaves
Mas já cá não estás
Quando o Inverno chegar
Partes no comboio da madrugada

Atracam os barcos no cais
Perdem-se uns homens no mar
Um dia, outros no seu lugar,
Lançarão também as redes

Em busca de peixe
Nesse mar profundo e escuro
A noite é longa e fria
A vida é breve e tensa

As ondas levam e trazem
A memória é um arquivo interior
Repleto de viagens inacabadas
O teu regresso está próximo

O caminho de volta
É perigoso, lento mas valioso
Avisto o teu vulto ao longe
Chegas e ficas. É isto. Permanecemos.

N. Afonso, 20.10.2012

domingo, 21 de outubro de 2012

O que ficará de pé

O que ficará de pé

É lícito perguntar
Se alguém sabe
O que ficará de pé
Quando tudo se desmoronar

Serão homens ou animais
Pedras ou vegetais
O Sol ou o luar
Quando tudo terminar?

Somos a última barreira
A última linha de resistência
Antes do ataque final
Ao coração da existência

Ninguém sabe o dia
A hora ou o local
Que não te domine a agonia
No momento crucial

E fica também a saber
Que o fim vem antes
De um novo início
É algo que não podes perder

N. Afonso, 09.10.2012

terça-feira, 16 de outubro de 2012

O corpo de arco-íris no Budismo Tibetano



'' Através destes métodos avançados do dzogchen (grande perfeição), os praticantes consumados podem conduzir as suas vidas até um fim extraordinário e triunfante. Quando morrem, permitem que o seu corpo seja reabsorvido de volta na essência de luz dos elementos que o criaram e, consequentemente, o corpo material dissolve-se em luz e desaparece completamente. Este processo é conhecido pela designação de '' corpo de arco-íris '' ou '' corpo de luz '', porque a sua dissolução é frequentemente acompanhada por manifestações espontâneas desse género. Os antigos tantras do dzogchen - e os escritos dos grandes mestres - distinguem diferentes categorias deste fenómeno espantoso e sobrenatural, pois houve tempo em que, apesar de não ser vulgar, era razoavelmente frequente.
  Em geral, uma pessoa que sabe que está prestes a atingir o '' corpo de arco-íris '' pede que a deixem sozinha e sem ser perturbada durante sete dias num quarto ou numa tenda e, no oitavo, só as unhas e os cabelos, as impurezas do corpo, são encontrados.
  Para nós isto pode ser uma coisa muito difícil de acreditar, mas a história factual da linhagem do dzogchen está cheia de exemplos de indivíduos que atingiram o '' corpo de arco-íris '' e, tal como Dudjom Rinpoche costumava dizer, não se trata apenas de histórias antigas. Entre os muitos exemplos, gostaria de escolher um dos mais recentes e famosos, com o qual tenho uma ligação pessoal, ocorrido em 1952 em Timor-Leste e testemunhado por muita gente. O homem que o conseguiu, Sogam Namgyal, era o pai do meu tutor e irmão do lama Tsetsen, cuja morte descrevi ao princípio deste livro. Era um homem muito simples e humilde, que ganhava a vida como escultor de pedra itinerante, gravando mantras e textos sagrados. Alguns dizem que na juventude fora caçador e que recebera os ensinamentos de um grande mestre, mas na realidade, ninguém sabia que se tratava de um praticante, daqueles que designamos por « ocultos «. Algum tempo antes da sua morte era visto a subir as montanhas, onde se sentava recortado contra o céu, olhando para o espaço, e compunha as suas próprias canções e cânticos, que entoava em substituição dos tradicionais. Ninguém fazia ideia do que ele andava a fazer, até que um dia adoeceu ou pareceu adoecer, e, por estranho que possa parecer, mostrou-se cada vez mais feliz. Quando a doença se agravou, a família chamou mestres e médicos, e o filho disse-lhe que não se esqueceria dos seus ensinamentos, mas Namgyal sorriu e respondeu: '' Já os esqueci a todos e, de qualquer modo, não há nada para recordar. Tudo é ilusão mas estou confiante de que tudo correrá bem ''. Um pouco antes da sua morte, aos setenta e nove anos, afirmou: '' Tudo o que peço é que, quando eu morrer, não toquem no meu corpo durante uma semana ''. Quando faleceu, a família enrolou-lhe o corpo em panos e convidou monges e lamas a praticarem por ele. Colocaram o corpo numa divisão da casa e não puderam deixar de notar que, apesar de Namgyal ter sido uma pessoa alta e forte, não tiveram qualquer problema para o pôr nesse quarto, era como se o corpo tivesse encolhido. Ao mesmo tempo, foi vista por toda a casa uma extraordinária exibição de luz, com as cores do arco-íris. Ao sexto dia, quando o olharam, verificaram que o corpo se tornava cada vez mais pequeno, e ao oitavo, na manhã em que deveria realizar-se o funeral, chegaram os homens para levarem o corpo, mas ao desenrolarem os panos encontraram apenas dentro destes as unhas e os cabelos.
  O meu mestre Jamyang Khyentse pediu que lhos enviassem e confirmou que se tratava de um caso de « corpo de arco-íris ''.

Sogyal Rinpoche '' O livro Tibetano da vida e da morte, cap.X '' o corpo de arco-íris ''.

Jamyang Khyentse Chokyi Lodro

sábado, 13 de outubro de 2012

Evola e a Tradição



'' Enquanto ' transcendência imanente ' o tradere, a transmissão (logo, a Tradição) não se refere a uma abstracção que se possa contemplar, mas a uma energia que, apesar de invisível não deixa de ser real. É aos chefes e à elite que cabe assegurar essa transmissão, no interior de certos quadros institucionais, variáveis mas homólogos na sua finalidade. É evidente que esta se encontra perfeitamente garantida enquanto é paralela à continuidade rigorosamente controlada de um mesmo sangue.  De facto, quando a cadeia de transmissão se interrompe é muito difícil restabelecê-la. Que a Tradição seja o oposto de tudo o que é democracia, igualitarismo, primado da sociedade sobre o Estado, poder que vem de baixo, etc., é inútil sublinhá-lo. ''
(Julius Evola, '' O Arco e a Clava, 1968)

quarta-feira, 10 de outubro de 2012

Segredos dos séculos

Segredos dos séculos

Jaz além um guerreiro
Sangue derramado em vão?
Que segredos se escondem
Nos confins dos séculos?

Perderam-se talvez
No brandir das espadas
No erguer dos escudos
E no galope dos cavalos

Na fúria indomável
Dos que combateram
Nos prantos e clamores
Dos muitos que caíram

No orgulho dos vencedores
E nos rostos dos vencidos
Na prosa dos historiadores
Ou nos versos dos poetas

Nas páginas em branco
Que ficaram por escrever...

Na nossa memória o passado
Tempos e lugares distantes
A continuidade do presente
E o futuro por forjar.


N. Afonso, 25.09.2012





terça-feira, 9 de outubro de 2012

F. Pessoa e a incompreensão pelo silêncio



'' Não sei o que diga. Pertenço à raça dos navegadores e dos criadores de impérios. Se falar como sou não sou entendido, porque não tenho Portugueses que me escutem. Não falamos eu e os que me são meus compatriotas uma linguagem comum. Calo. Falar seria não me compreenderem. Prefiro a incompreensão pelo silêncio. '' (Fernando Pessoa/Bernardo Soares, Livro do desassossego).

terça-feira, 25 de setembro de 2012

Soneto cósmico

Soneto cósmico

O mundo é plural e distinto
Multiforme e complexo
É Um no Todo
E o Todo é Um

Estrelas e planetas
Asteróides e cometas
Galáxias e constelações
Respostas e interrogações

O Tempo é uma espiral
O Espaço tem as suas dimensões
Brilham relâmpagos, ribombam trovões

E nesta imensidão nua
Há luas para além da Lua
E sóis para além do Sol.

N. Afonso, 17/08/2012

sábado, 15 de setembro de 2012

Erosão e união

Erosão e união

Picam como cactos
Nas tuas mãos
As palavras ditas
E os gestos disfarçados

As linhas escritas
E os longos silêncios
Congelados por nós
Num ápice revelados

O receptáculo da dor
Essa tua pele fria
Agora enrugada
Pela erosão do tempo

A vida e a morte
Consumidas pela mesma chama
O hoje e o amanhã
Fundidos num só momento

O dia e a noite entrelaçados
O céu e a terra casados

Não olhes para trás
Ou ainda te convertes
Numa estátua de sal

N. Afonso, 13.09.2012


quarta-feira, 12 de setembro de 2012

O simbolismo do coração




 O Coração Irradiante e o Coração Ardente, por René Guénon

'' Ao nos referirmos a propósito da ''luz e da chuva'', às representações do Sol com raios alternadamente rectilíneos e ondulados, mencionámos que as duas espécies de raios se encontram também, de modo muito semelhante, em certas figurações simbólicas do coração. Um dos exemplos mais interessantes é o do coração figurando sobre um pequeno baixo-relevo de mármore negro, que data aparentemente do século XVI e provém do Convento Cartuxo de Saint-Denis d'Orques, tendo sido estudado por L. Charbonneau-Lassay.(1) Esse coração irradiante está colocado no centro de dois círculos sobre os quais se encontram respectivamente os planetas e os signos do Zodíaco o que o caracteriza de forma evidente com o «Centro do mundo«, sob a dupla relação do simbolismo espacial e do simbolismo temporal.(2) Essa figuração é evidentemnte ''solar'', mas no entanto, o facto de que o Sol, entendido no sentido ''físico'', encontra-se colocado no círculo planetário, tal como deve estar normalmente no simbolismo astrológico, mostra muito bem que se trata nesse caso do ''Sol espiritual''. 
  Vale a pena lembrar que a assimilação do Sol ao coração, na medida em que ambos têm igual significação ''central'', é comum a todas as doutrinas tradicionais, no Ocidente e no Oriente. Proclo, por exemplo, assim fala ao se dirigir ao Sol: ''Ocupando acima do éter o trono do meio, e tendo por imagem um círculo deslumbrante, que é o Coração do Mundo, tu preenches a tudo com uma providência pronta a despertar a inteligência.(3) Citamos de preferência esse texto, ao invés de muitos outros, em virtude da menção formal que se faz à inteligência. E, tal como já explicámos em  muitas oportunidades, o coração é considerado também, antes de mais nada, em todas as tradições, como a sede da inteligência.(4) Aliás, segundo Macróbio, ''O nome Inteligência do Mundo que se dá ao Sol corresponde ao de Coração do Céu'';(5) fonte da luz etérea, o Sol é para esse fluído o que o coração é para o ser animado.(6) Plutarco, ainda, escreveu que o Sol, ''tendo a força de um coração, espalha e emite de si o calor e a luz, como se fosse o sangue e o sopro.(7) Encontramos nessa última passagem, tanto para o coração como para o Sol, a indicação do calor e da luz, que correspondem às duas espécies de raios que considerávamos. E se o ''sopro'' está aí relacionado à luz, é porque na verdade se constitui no símbolo do espírito, que é em essência a mesma coisa que a inteligência. Quanto ao sangue, é evidentemente o veículo do ''calor vivificante'', o que se refere mais em particular ao papel ''vital'' do princípio que é o centro do ser.(8)
  Em certos casos, a figuração do coração dispõe de apenas um desses dois aspectos: a luz é naturalmente representada por uma irradiação de tipo comum, isto é, formada apenas de raios rectilíneos, enquanto que o calor é representado, de hábito, por chamas que saem do coração. Podemos além disso observar que a irradiação, mesmo quando os dois aspectos estão reunidos, parece sugerir, de modo geral, uma reconhecida preponderância ao aspecto luminoso. Essa interpretação é confirmada pelo facto de que as representações do coração irradiante, com ou sem distinção das duas espécies de raios, são as mais antigas, datando na maioria dos casos de épocas em que a inteligência era ainda tradicionalmente referida ao coração, enquanto que as representações do coração ardente se difundiram sobretudo com as ideias modernas que reduzem o coração a corresponder apenas ao sentimento.(9) E sabemos que, de facto, quase se chegou ao ponto de dar apenas este último significado ao coração, e de se esquecer inteiramente a sua relação com a inteligência. A origem desse desvio pode sem dúvida ser atribuída em grande parte ao racionalismo, na medida em que este pretende identificar pura e simplesmente a inteligência à razão; porém o coração nato está de modo algum relacionado à razão, mas sim ao intelecto transcendente, que no entanto, precisamente, é ignorado e mesmo negado pelo racionalismo. Na verdade, porém, a partir do momento em que o coração passa a ser considerado como o centro do ser, todas as  modalidade desse ser podem num certo sentido ser referidas, ao menos indirectamente, ao próprio coração, inclusive o sentimento ou o que os psicólogos denominam ''afectividade''; isso torna possível ainda observar as relações hierárquicas que decorrem do facto de apenas o intelecto ser verdadeiramente ''central'' e das demais modalidades só terem um carácter mais ou menos ''periférico''. No entanto, na medida em que a intuição intelectual que reside no coração passa a ser desconhecida,(10) e tem a sua função ''iluminadora'' (11) usurpada pelo cérebro, nada mais resta ao coração que a possibilidade de ser considerado como a sede da afectividade. (12) Além disso, o mundo moderno deveria ver nascer ainda, como uma espécie de contrapartida do racionalismo, o que se poderia denominar de sentimentalismo, ou seja, a tendência de ver no sentimento o que há de mais profundo e mais elevado no ser, e de afirmar a sua supremacia sobre a inteligência. E é evidente que tal coisa, como tudo que na realidade constitui a exaltação do 'infra-racional'', só pôde produzir-se porque a inteligência tinha sido previamente reduzida à razão pura e simples. 
  Agora, se deixarmos de lado o desvio moderno que acabámos de indicar e quisermos, dentro dos seus legítimos limites, estabelecer uma certa relação do coração com a afectividade, deveremos considerar tal relação como resultado directo do papel do coração como ''centro vital'' e sede do ''calor vivificante'', ficando assim a vida e a afectividade coisas muito próximas entre si, ou mesmo inteiramente conexas, enquanto a relação com a inteligência é por certo de uma ordem muito diferente. Quanto ao mais, essa estreita relação entre a vida e a afectividade está expressa de maneira clara pelo próprio simbolismo, visto serem ambas, representadas sob o aspecto de ''calor''. (13) E é em virtude dessa mesma assimilação que, embora de uma forma muito pouco consciente, fala-se habitualmente na linguagem comum do calor do sentimento ou da afeição. (14) É preciso ainda notar a esse respeito que, quando o fogo se polariza nos seus dois aspectos complementares, a luz e o calor, estes, na sua manifestação, encontram-se por assim dizer, em razão inversa entre si. Sabemos, mesmo do ponto de vista da física, que uma chama é de facto tanto mais quente quanto menos ilumina. Do mesmo modo, o sentimento só é na verdade um calor sem luz. (15) Também no homem pode ser encontrada uma luz sem calor, como a razão, que é uma luz reflectida, fria como a luz lunar que a simboliza. Na ordem dos princípios, pelo contrário, os dois aspectos, como todos os complementares, estão juntos e unidos indissoluvelmente, pois sao constitutivos de uma mesma natureza essencial. É o que acontece também com o que diz respeito à inteligência pura, que pertence exactamente a essa ordem dos princípios, o que vem confirmar mais uma vez, como indicámos antes, que a irradiação simbólica sob a sua dupla forma pode ser-lhe integralmente vinculada. O fogo que reside no centro do ser é luz e calor ao mesmo tempo. Mas, se quisermos traduzir esses dois termos respectivamente por inteligência e amor, ainda que sejam no fundo dois aspectos inseparáveis de uma única coisa, será necessário para que essa tradução se torne aceitável e legítima, acrescentar que o amor em questão difere do sentimento ao qual se dá o mesmo nome, na mesma proporção em que a inteligência pura difere da razão. 
  Pode-se compreender facilmente, com efeito, que certos termos tomados da afectividade sejam, como tantos outros, passíveis de serem transportados analogicamente para uma ordem superior, pois todas as coisas têm de facto, além do seu sentido imediato e literal, um valor de símbolos em relação a realidades mais profundas. E é evidente que isso também ocorre, em particular, todas as vezes em que se trata do amor nas doutrinas tradicionais. Entre os próprios místicos, apesar de certas confusões invitáveis, a linguagem afectiva aparece sobretudo como um modo de expressão simbólica, pois, seja qual for entre eles a parte incontestável do sentimento no sentido usual dessa palavra, é no entanto inadmissível, apesar do que pretendem os psicólogos modernos, que não exista aí mais que emoções e afeições puramente humanas atribuídas, enquanto tais, a um objecto supra-humano. Entretanto, a transposição torna-se ainda muito mais evidente quando se constata que as aplicações tradicionais da ideia de amor não se limitam ao domínio exotérico e sobretudo religioso, mas estendem-se também ao domínio esotérico e iniciático. É o que ocorre em particular com os inúmeros ramos ou escolas do esoterismo islâmico e também com certas doutrinas da Idade Média Ocidental, em especial nas tradições próprias das Ordens da cavalaria(16), bem como na doutrina iniciática, aliás conexa, que encontra a sua expressão em Dante e nos ''Fiéis de Amor''. Podemos acrescentar que a distinção entre a inteligência e o amor, assim entendida, tem a sua correspondência na tradição hindu com a distinção entre Jnâna-marga (caminho do conhecimento) e Bhakti-marga (caminho da devoção). A referência que acabámos de fazer às Ordens da cavalaria indica, além do mais, que o caminho do amor é em particular mais apropriado aos kshatryias (guerreiros), enquanto o caminho da inteligência ou do conhecimento é naturalmente aquele que convém sobretudo aos brâmanes. Mas, em suma, trata-se de uma diferença que apenas se aplica à forma de considerar o Princípio, de acordo com a própria diferença das naturezas individuais, mas que não poderia de forma alguma afectar a indivisível unidade do próprio Princípio.''

(Publicado na revista Études Traditionnelles, Junho-Julho de 1946)


NOTAS: 
1. Le Marbre astronomique de Saint-Denis d'Orques, na Regnabit, fev. 1924, [republicado no livro Le Bestiaire du Christ, cap X]. Esta gravura está reproduzida acima, ao lado do título deste estudo.
2. Existem também, na mesma figura, outros detalhes de grande importância do ponto de vista simbólico: assim, em especial, o coração tem uma chaga, ou alguma coisa com a aparência exterior de uma chaga, com forma de ura iod hebraico, o que se refere ao mesmo tempo ao "Olho do coração" e ao "germe" do avatar que reside no "centro", quer seja este entendido no sentido macrocósmico ( o que é aqui claramente o caso) ou no sentido microcósmico (v. Aperçus sur l’Iniciation, cap. XLVIII). 
3. Hymne au Soleil, trad. de Mario Meunier. 
4) É claro (e voltaremos a isso mais adiante) que se trata aqui da inteligência pura, no sentido universal, e não da razão, que é o simples reflexo dela na ordem individual e está relacionada ao cérebro; no ser humano, o cérebro está para o coração em relação análoga a que, no mundo, a Lua está para o Sol. 
5) A expressão "Coração do Céu", aplicada ao Sol encontra-se também nas antigas tradições da América Central. 
6) O Sonho de Cipião, 1,20. 
7) Da face que se vê no círculo da Lua, 15,4. Esse texto e o precedente são citados em nota pelo tradutor a propósito da passagem de Proclo que acabamos de reproduzir.
8) Aristóteles assimila a vida orgânica ao calor, no que está de acordo com todas as doutrinas orientais. O próprio Descartes coloca no coração um "fogo sem luz", mas que para ele é apenas o princípio de uma teoria fisiológica exclusivamente "mecanicista”, como toda sua física, o que, bem entendido, nada tem em comum com o ponto de vista tradicional dos antigos. 
9)  É notável a esse respeito que, em particular no simbolismo cristão, as mais antigas figurações conhecidas do Sagrado Coração pertencem todas ao tipo do coração irradiante, enquanto que naqueles que não remontam além do século XVII, encontra-se o coração ardente de uma forma constante e quase que exclusiva. Aí está um exemplo muito significativo da influência exercida pelas concepções modernas até no domínio religioso. 
10) Essa intuição intelectual é exatamente simbolizada pelo "olho do coração". 
11) Cf. o que dissemos em outra parte sobre o sentido racionalista dado aos "luminares" do século XVIII, em especial na Alemanha, e sobre a significação correspondente da denominação Iluminados da Baviera 
(Aperçus sur l'Initiation, cap. XII). 
12) É assim que Pascal, contemporâneo dos inícios do racionalismo propriamente dito, já entende “coração” no sentido exclusivo de “sentimento”. 
13. Trata-se aqui, naturalmente, da vida orgânica em sua acepção mais literal, e não do sentido superior no qual a vida, ao contrário, está em relação com a luz, tal como se vê em especial no início do Evangelho de São João (cf. Aperçus sur 1'Initiation, cap. XLVII). 
14. Entre os modernos, considera-se também com grande freqüência que o coração ardente representa o amor, não só o amor no sentido religioso, mas também no sentido puramente humano. Era essa a representação corrente, sobretudo no século XVIII. 
15. É por isso que os antigos representavam o amor como sendo cego. 
16. Sabe-se que a base principal dessas tradições era o Evangelho de São João: "Deus é Amor”, o que seguramente só pode ser compreendido pela transposição do que falamos; e o grito de guerra dos Templários era:  “Viva Deus Santo Amor”.



terça-feira, 11 de setembro de 2012

Buda sobre a ilusão do real



'' Sabei que todas as coisas são assim:
  Uma miragem, um castelo de nuvens,
  Um sonho, uma aparição,
  Sem essência mas com qualidades que podem ser vistas.

  Sabei que todas as coisas são assim:
  Com a Lua num céu brilhante,
  Num límpido lago reflectida.
  Porém, para o lago, a Lua nunca se moveu.

  Sabei que todas as coisas são assim:
  São como um eco que provém
  Da música dos sons, dos choros.
  Porém esse eco não tem uma melodia.

  Sabei que todas as coisas são assim:
  Tal como um mágico faz ilusões
  De cavalos, bois, carros e outras coisas,
  Nada é aquilo que parece.

Buda, «Samadhirajasutra«, citado in «Ancient futures: Learning from Ladakh«, de Helena Norbert-Hodge.
 

terça-feira, 4 de setembro de 2012

Nunca é tarde

Nunca é tarde

É noite e tudo arde
Espelhos de mil cores
Deslizam a teus pés
As imagens desvanecem-se

Os conceitos são reduzidos a pó
A glória pesa como chumbo
A vingança é uma seta
Apontada ao teu coração

Espreitas pelo buraco da fechadura
E sais de casa à pressa
Lá fora a chuva cai
Solene e persistente

Sodoma e Gomorra
Mesmo ali ao lado
Marcham as hordas de Gog e Magog
Cinzas e ossos, já nada resta...

Ergues os braços ao céu
Suspiras pelo fim mas em vão
Ouves o murmúrio das ondas
E depois o som das trombetas

Nunca é tarde
Para começar
Quando o presente
É agora e sempre.

N. Afonso, 28.08.2012

quinta-feira, 26 de julho de 2012

Espaço e tempo para além de mim



'' Poderá existir espaço e tempo para além de mim?
  O tempo e o espaço apenas me prendem se eu for um corpo,
  Eu não estou em parte alguma, eu sou perpétuo,
  Eu existo em toda a parte e para a eternidade ''

  Ramana Maharsi (1870-1950)

domingo, 22 de julho de 2012

Do exílio

Exilados

Somos exilados
Na nossa própria terra
Não existe pátria
Nação ou povo

Tudo é global e disperso
A identidade dilui-se
Neste emaranhado caótico
De multidões anónimas urbanas

O Estado é inimigo
O luar um abrigo
Nossas mentes e corações
Unidos não pelos cifrões

Sobre os escombros da cidade
Construiremos a liberdade
Juntos e rejuvenescidos
Pela vitória fortalecidos

N. Afonso, 19.07.2012

sábado, 21 de julho de 2012

Fim do Kali Yuga, o Kalki Avatara e o nascer de uma nova Era

Kalki


(Tradução minha a partir do Inglês)


'' E quando esses tempos terríveis terminarem, a criação começará novamente. E os homens serão novamente criados e distribuídos pelas quatro ordens, começando pelos Brâmanes. E nesse tempo, de modo a que os homens possam aumentar, a Providência, a seu gosto, tornar-se-á uma vez mais favorável. E então quando o Sol, a Lua e Vrihaspati, irão, com a constelação Pushya* entrar no mesmo signo, a Era de Krita** começará de novo. E as nuvens começarão a deitar água no momento oportuno e as estrelas e conjunções estrelares tornar-se-ão auspiciosas. E os planetas, girando correctamente  nas suas órbitas, tornar-se-ão muitíssimo favoráveis. E por toda a parte haverá prosperidade e abundância e sáude e paz. E autorizado pelo Tempo, um Brâmane de nome Kalki virá ao mundo. Glorificará Vishnu e possuirá grande energia, grande inteligência e grande bravura. E nascerá numa cidade chamada Shambhala numa feliz família Brâmane. E armas e veículos, armamentos e guerreiros e cotas de malha estarão à sua disposição assim que pense neles. E ele será o rei dos reis, sempre vitorioso pela força da virtude. E restaurará a paz e a ordem neste mundo repleto de criaturas e contraditório no seu curso. E esse Brâmane flamejante de intelecto poderoso, havendo aparecido, destruirá todas as coisas. E ele será o destruidor de tudo e inaugurará uma nova Era. E rodeado pelos Brâmanes, esse Brâmane exterminará todos os bárbaros onde quer que essas vis e desprezíveis pessoas possam obter refúgio. ''

Notas: Pushya*- Oitavo asterismo lunar, consiste de três estrelas, sendo uma delas Capricórnio;
Krita**- Krita Yuga ou Satya Yuga é o nome da Idade de Ouro na tradição hindu.

Mahabharata, Livro 3: Vana Parva: Markandeya-Samasya Parva, Secção CLXXXIX, traduzido por Kisari Mohan Ganguli


sexta-feira, 20 de julho de 2012

Os sinais do fim do Kali Yuga segundo o Mahabharata



(Tradução minha a partir do Inglês)


'' Tudo isto acontecerá no fim do Yuga e sabe que estes são os sinais do fim do Yuga. E quando o homem se tornar feroz e destituído de virtude e carnívoro e viciado em bebidas tóxicas, então o Yuga chega ao fim. E, ó Monarca, quando as flores forem geradas dentro das flores e os frutos dentro dos frutos, então o Yuga chegará ao fim. E as nuvens despejarão água despropositadamente quando se aproximar o fim do Yuga. E, nessa altura, os ritos dos homens não se seguirão uns aos outros pela ordem correcta e os Sudras brigarão com os Brâmanes. E em breve a terra estará cheia de forasteiros e os Brâmanes correrão em todas as direcções temendo o peso dos impostos. E cessarão todas as distinções entre os homens, tais como as relativas à conduta e ao comportamento e, aflitos com tarefas e serviços honrosos, as pessoas fugirão para retiros nas florestas, subsistindo de frutos e raízes. E o mundo estará tão aflito que a conduta recta deixará de aparecer onde quer que seja. E os discípulos desprezarão as instruções dos mestres e tentarão até injuriá-los. E os mestres empobrecidos serão menosprezados pelos homens. E os amigos e parentes realizarão serviços agradáveis apenas pela riqueza que uma pessoa possua. E quando o fim do Yuga chegar todos estarão em falta. E todos os pontos do horizonte estarão em chamas e as estrelas e constelações não brilharão e os planetas e conjunções planetárias não serão auspiciosos. E o curso dos ventos será confuso e  agitado e inúmeros meteoros brilharão no céu, pressagiando o mal. E o Sol aparecerá com com seis outros da mesma espécie. E tudo em redor será estrondo e tumulto e por toda a parte haverá conflagrações. E o Sol, desde que nasce até que se põe, será envolvido por Rahu. E a divindade de mil olhos derramará chuva intempestivamente. E quando o fim do Yuga chegar as colheitas serão escassas. E as mulheres estarão sempre de língua afiada, impiedosas e choramingonas. E elas nunca suportarão as ordens dos seus maridos. E quando o fim do Yuga chegar os filhos assassinarão os pais e mães. E as mulheres, vivendo descontroladamente, matarão também os seus maridos e filhos. E, ó Rei, quando o fim do Yuga chegar, Rahu engolirá o Sol despropositadamente. E haverá chamas por toda a parte. E viajantes incapazes de obter comida, bebida e abrigo, mesmo quando peçam, deitar-se-ão à beira da estrada. E quando o fim do Yuga chegar, corvos, serpentes, abutres e milhafres e outros animais e aves emitirão gemidos assustadores e dissonantes. E quando o fim do Yuga chegar, os homens abandonarão e negligenciarão os seus amigos, parentes e subordinados. E, ó Monarca, quando o fim do Yuga chegar, os homens que abandonarem os países, cidades e vilas que ocupavam, buscarão outros novos, um após outro. E as pessoas vaguearão pela terra, proferindo ' ó pai, ó filho' e outros gemidos dilacerantes e assustadores.''

(Mahabharata, Livro 3: Vana Parva: Markandeya-Samasya Parva, Secção CLXXXIX, traduzido por Kisari Mohan Ganguli)

quinta-feira, 19 de julho de 2012

Síntese dos contrários

Síntese dos contrários


Há um caminho
Para sair do labirinto
E algo que está para além
Do espaço e do tempo

Há uma saída
No fim da estrada
E uma ponte
A ligar os mundos

Há água pura
Em pleno deserto
E uma luz que brilha
Na escuridão

Mas é cedo para partir
E tarde para ficar
Fria a noite para sair
Quente o dia para esperar

Abre a porta que se fecha
Fecha a janela que se abre
Supera a mágoa que aparece
Segura a mão que estremece

Lembra a hora de actuar
Esquece o dia de parar
Esconde a fraqueza que mata
Revela a força que vence

N. Afonso, 16/07/2012



domingo, 8 de julho de 2012

Inimigos

Inimigos


Sem qualquer identidade
Memória ou tradição
E cheios de vazia vaidade
Os inimigos da Revolução

N. Afonso 18.06.2012

sábado, 7 de julho de 2012

O Sistema de Guildas


O Sistema de Guildas, por Hillaire Belloc (Tradução minha)

''A Guilda é a mais velha, mais importante, mais profundamente enraízada de todas as instituições humanas. Apareceu em todas as civilizações que são estáveis, porque é necessária para a estabilidade. Floresceu especialmente numa época em que a nossa raça tinha a mesma religião e também uma superior civilização comum. Apenas desapareceu recentemente. Seremos compelidos a restaurá-la se queremos disfrutar da liberdade, e quanto mais depressa o fizermos de um modo adequado, melhor. Será especialmente valiosa no campo industrial, que é aquela parte da vida humana que mais precisa de ser corrigida.
  A Guilda é esssencialmente isto: - Uma associção de homens comprometidos numa mesma ocupação e
o seu objectivo primeiro é o apoio mútuo. Estes termos gerais envolvem um número de termos particulares, os quais hoje esquecemos e que temos de relembrar se queremos restaurar a propriedade e torná-la estável e permanente- que é a condição para restaurar a liberdade, a dignidade humana e a família, as quais o Capitalismo Industrial tão gravemente feriu.
  As funções detalhadas que a Guilda executa, exceptuando a sua função geral de apoio mútuo e garantia entre os homens com um ofício similares são as seguintes:
  Primeiro, garante a sua propriedade. Não a destrói como o Comunismo faria; faz exactamente o oposto. Torna a propriedade permanente e faz com que a competição desmedida e as acções hostis entre os vários membros não levem a que os homens mais pobres sejam engolidos pelos mais ricos. Assim, das primeiras actividades da Guilda que descobrimos ser usada durante centenas de anos é elaborar leis relativas à conduta do seu comércio especial pelos seus próprios membros, e o elaborar dessas leis de modo a que cada membro possa continuar a ser, dentro de certos limites, um membro livre da Guilda e um proprietário livre dos seus meios de sustento. A Guilda não evita o florescimento dos homens laboriosos, nem estabelece um prémio de ociosidade ou ineficiência, mas faz leis por meio das quais a entrada para a Guilda seja apenas obtida em certas condições, por meio de que haja um período de experiência, antes de um homem se tornar um membro de pleno direito, de modo que aqueles que desejem trabalhar em tal e tal ofício tenham de pertencer à Guilda e pelo qual a competição indevida seja fiscalizada.
  Segundo, a Guilda tem por acordo do Estado o direito de lidar com os assuntos que são a ocupação dos seus membros, o direito a tal ocupação está restringido aos membros da Guilda; mas o Estado não autoriza a Guilda a excluir trabalhadores solícitos, ainda menos vender o privilégio de ser associado da mesma. A entrada na Guilda tem de estar aberta a todos mediante um teste de eficiência no respectivo ofício.
  Terceiro, um membro da Guilda tem de observar certos limites na sua concorrência com outros membros da mesma que tenham o mesmo ofício. Há coisas que ele pode fazer e outras que não pode. Há regras para a sua conduta profissional às quais tem de obedecer sob pena de ser expulso da Guilda e, desse modo, perder o seu sustento, e estas regras são concebidas com duas finalidades: o bom desempenho do ofício e a manutenção dos seus membros, de modo que cada um, com um mínimo de diligência e eficiência, tem um sustento seguro.
  Quarto, a Guilda é autónoma dentro dos limites do seu contrato, a carta que lhe foi concedida pela autoridade pública do Estado.
  O modo como a Guilda funciona na sua plenitude apenas podemos agora estudá-lo a partir dos documentos do passado- e eles devem ajudar-nos a restaurar a Guilda na actualidade. Mas ficamos com ideias claras da acção das Guildas no pouco que resta das velhas Guildas. Vemos isso num certo grau entre os advogados e ainda mais entre os médicos, especialmente nos velhos países europeus. Assim, mesmo na Inglaterra, por mais capitalista que ela seja, um homem está proibido de exercer como médico a menos que haja provado, através de exame e pela prática médica durante um período de experiência, a sua capacidade para exercer esse ofício. Em muitos lugares um médico está, pelas regras da sua sociedade, proibido de colocar anúncios. Um médico, pelos usos da sua sociedade, - que têm a força de lei, não pode quebrá-los sem perder o seu lugar na corporação- não leva um paciente das mãos de um seu colega sem este deixar. Um médico está sujeito a preservar certas regras de honra e discrição ligadas à sua profissão, que são virtualmente garantidas pela Guilda da qual é membro.
  O que é aqui verdadeiro acerca da profissão médica costumava ser verdadeiro em todas as actividades no Estado.
  A união colectiva das Guildas garantia a independência de cada membro. O correcto exercício da arte na qual estava comprometido e a restrição da concorrência dentro de limites razoáveis estavam assegurados. O seu efeito geral era prevenir o enriquecimento indevido de um membro à custa de outros, e embora as regras fossem flexíveis, e as margens de lucro correspondessem a diferenças de talento e oportunidade, a Guilda era a garantia de propriedade continuada e independência.
  O Espírito da Guilda, mesmo que o nome de Guilda não fosse usado, aplica-se a muito mais do que artes produtivas ou profissões aprendidas. Aplica-se à agricultura na forma de instituições cooperativas para a aldeia e de garantias contra a absorção de terras por um pequeno grupo. Aplica-se à distribuição e ao transporte. Hoje, na distribuição, a Guilda seria especialmente valiosa; fiscalizaria a concorrência e garantiria aos pequenos o seu sustento e preservaria os melhores hábitos do comércio: proteger o público contra a adulteração dos bens e contra as deficiências de todos os tipos.
  A Guilda, para ser útil a um grande Estado, tem de ser subdividida. Poderá haver um variado número de Guildas locais, mas têm de ter um laço comum, como têm hoje as uniões comerciais.
  Não faremos nada para a restauração da propriedade a menos que também reestabeleçamos a Guilda. E temos de aplicar o princípio da Guilda a toda a espécie de actividade humana, de forma a estabilizar e garantir a propriedade; e, com propriedade, independência, de modo a tornar o trabalho de cada homem digno e válido. Podemos fazer da Guilda a cooperativa proprietária de grandes empreendimentos que requeiram tal cooperação; podemos torná-la a protectora do pequeno proprietário, do pequeno proprietário de uma loja, por exemplo, e do proprietário de parcelas individuais numa grande loja onde muitos distribuidores trabalham juntos.
  Toda a espécie de bem circularia a partir do reestabelecimento da Guilda, e sem o reestabelecimento da mesma o esforço para manter a propriedade bem distribuída, mesmo que tivéssemos já alcançado essa boa distribuição, seriam vãos; porque só a Guilda pode garantir a permanência da propriedade bem distribuída.
  Mas existe um obstáculo à fundação das Guildas. Há uma rocha sobre a qual qualquer tentativa de restaurar a Guilda pode ser destruída. Até que hajamos aprendido a evitar o obstáculo ou a tirá-lo do caminho, a restauração da propriedade não pode ser assegurada. Esse obstáculo é o tolo e irracional príncipio da competição ilimitada. Todo o espírito da Guilda se opõe a essa ideia. A Guilda, quase podemos dizer, vem à existência, e sempre veio à existência com a finalidade de prevenir os homens de serem destruídos pelo demónio da concorrência ilimitada, que é apenas outra palavra para a ganância sem limites.
  Enquanto deste modo o homem confundir a liberdade com o abuso da liberdade, até lá não irá somente a  Guilda mas a propriedade, que é mantida pela existência da mesma, permanecer inatingível. Os homens têm de se acostumar à ideia de uma sociedade restrita com o privilégio de exercer esta ou aquela função aberta a todos ( mas apenas sob a condição de aceitar ser membro da Guilda ) antes do nosso esforço de restauração da propriedade poder começar.
  Talvez o renascimento de uma ideia com a qual os homens não cresceram seja a parte mais difícil da nossa tarefa. Ainda assim, a menos que tenhamos sucesso nessa tarefa, desesperaremos dessa mesma liberdade, o nome da qual pode ser usado pelos nossos adversários para derrotarem os nossos esforços. Sem propriedade assegurada pela massa dos cidadãos - por um determinado número de cidadãos - não há liberdade; e sem a Guilda não existe manutenção permanente da propriedade. ''

sábado, 30 de junho de 2012

' Deve ser o último tempo '



' Deve ser o último tempo '

Deve ser o último tempo
A chuva definitiva sobre o último animal nos pastos
O cadáver onde a aranha decide o círculo.
Deve ser o último degrau na escada de Jacob
E o último sonho nele
Deve ser-lhe a última dor no quadril.
Deve ser o mendigo à minha porta
E a casa posta à venda.
Devo ser o chão que me recebe
E a árvore que me planta.
Em silêncio e devagar no escuro
Deve ser a véspera. Devo ser o sal
Voltado para trás.
Ou a pergunta na hora de partir.

Daniel Faria, Explicação das Árvores e de Outros Animais(1998)







quarta-feira, 27 de junho de 2012

Auspícios

Auspícios


Do solo brotam flores
E espinhos da tua pele
Caminhas ao pôr-do-sol
És o poente na minha alma

Das nuvens sobre o deserto
Caem gotas de vitalidade
Na planície dos teus cabelos
Mora um raio de liberdade

N. Afonso, 9.04.2012

terça-feira, 26 de junho de 2012

Discutindo a Raça num Mundo Global (Cont.)

Discutindo a Raça num Mundo Global, por Welf Herfurth (Parte II)

É óbvio que o que é diferente muitas vezes tem o apelo do exótico e não podemos prevenir a mistura de raças em pequena escala. Também em certos lugares em diferentes tempos isto ocorreu de um modo visível, com forças culturais e históricas a actuarem de modo a produzirem novos resultados a longo termo. 
  Não sei se existe um plano para encorajar o resultado de um mundo único. Pode ser a ingenuidade, estupidez ou ganância das pessoas que encorajam esta visão. No entanto, sou levado a pensar que há um encorajamento de liberais ocidentais, capitalistas de todas as cores, alguns teólogos e outros para ser criado um ' mundo único '. Renovadores do mundo de todas as espécies e os tão chamados liberais promovem a ideia de que a diversidade é um vazio fastidioso. Eu atacaria esta espécie de ' visão ' e preferiria as diferenças raciais e a diversidade. E argumentaria que não ' gravitamos naturalmente ' em direcção à Grande Raça Parda, mas estamos de facto a ser colonizados. 
  Sei que na actual sociedade ocidental discutir a raça é como pisar um solo perigoso e viscoso. Mas estou disposto a fazê-lo. Acredito que a sobrevivência das diferentes raças e culturas é tão importante como a sobrevivência da baleia, elefantes e diferentes aves. É um objectivo respeitável se for mantido como uma celebração da diversidade tão essencial ao progresso humano global. Ainda somos uma família.
  Para manter um tal objectivo, repudiaria qualquer noção de que uma raça é melhor do que outra numa hierarquia organizada do melhor para o pior. É precisamente poque as raças têm diferentes capacidades e aptidões e possivelmente défices que isto não pode ser feito. Resta-me dizer que as raças são iguais mas não são a mesma coisa. Podemos e devemos aceitar que estas diferenças estão gravadas nas nossas culturas. As nossas culturas são as janelas para as nossas almas. Elas definem cada uma das raças, cada um dos sub-tipos, cada um dos povos. Estas culturas são tesouros. Podem ser apreciadas por cada um dos tipos humanos, mas apenas são totalmente vividas e apreciadas somente pelo seu grupo criador. Obviamente que uma raça ou uma nação tem o direito de conservar a cultura e identidade da sua nação no seu próprio país. Onde está a afirmação de arrogância própria nisso? Se uma raça ou outro grupo é possuidor/a de uma cultura tem o direito de preferir conservá-la.
  Podemos ter um mundo de povos em zonas definíveis como alternativa à Nova Ordem Mundial de caos e destruição? Talvez esta seja a máxima expressão do meu argumento! Mas o plano dos liberais políticos, dos mass média e da indústria do entertenimento é promover o multiculturalismo (que na minha opinião é na verdade, monocultura liberal) nas sociedades ocidentais e vai, de facto, destruir as culturas europeias. Contudo, o modelo deles está ser cada vez mais imposto a outros povos como parte do imperialismo da Nova Ordem Mudial. É um imperialismo estranho que chega a despojar o conquistado da sua cultura e depois a diluir os seus destroços com os destroços dos outros. Agrada-me observar que muita gente se ergue agora contra este modelo. 
  Sempre gostei de viajar e ver o mundo. Dá-me o sentimento de estar vivo e de interagir com pessoas e lugares. Nunca entenderei como as pessoas podem viver num lugar e somente num lugar e pensarem que vivem no ' melhor lugar da terra '. Cada terra pode ser um grande país mas não existe tal coisa como o ' melhor lugar '. Semelhantemente, podemos descartar a ideia da melhor raça. Num mundo que parece estar a perder o seu rumo e caminhar para o conflito, deveríamos procurar as causas. Elas não estão apenas nas rivalidades de raças, nem esta espécie de rivalidade levou o mundo humano à beira da destruição. Olharmos para trás para a história, certamente envolveu conflitos de raças e povos e actos iníquos. No entanto, o passado também possuía um princípio de diversidade como sendo essencial ao progresso global. Quaisquer que fossem as diferenças, e as disputas que produzissem, havia entre todos a ideia de uma certa segurança nos acordos. Isto é agora desafiado pelo falso anti-racismo de um mundo único. 
  Deixem-nos discutir a raça. Deixem-nos ver se a defesa da raça oferece um desafio para o chamado mundo único. É uma boa maneira de começar. Se gostamos dos frutos desta discussão, podemos levá-la mais longe. Pode ser a ideia revolucionária a levantar contra a uniformidade, conformidade, a monotonia, o destrutivo e a globalização.
                                               Somos todos iguais, mas não somos o mesmo.

domingo, 24 de junho de 2012

Discutindo a Raça num Mundo Global

Discutindo a Raça num Mundo Global , por Welf Herfurth (Tradução minha)

O tema da raça e diferença racial é algo que muita gente evita. Alguns consideram isso maus modos ou algo de indelicado. Outros dizem que é ofensivo e que a sua discussão devia ser proibida por lei. Em relação a isso chegam ao ponto de negar a existência de raças, afirmando as mais variadas teorias religiosas, filosóficas, científicas e morais em apoio da tese. Algumas pessoas poderão concluir que as raças existem de um modo limitado e quase sem sentido e que por razões 'humanas-universalistas' elas devem ser abolidas.
  Obviamente que há pessoas - em todas as raças - que acreditam que a sua particular origem as torna sábias, boas ou superiores. O facto que existam este tipo de seres humanos pode condicionar as atitudes daqueles que promovem o assunto não nos confundirem mais. Por vezes este grupo é totalmente ofensivo e alguns entre eles têm uma constituição mental genocida. Apesar disso, isso não torna inválida a existência de raças enquanto tais. Os antigos Chineses que se referiam a outros como bárbaros ou o Hitleriano que se refugiou numa falsa estética ou o Judeu Sionista que acredita que alguns povos são entidades inferiores são usados por muitos como desculpas para se recusarem tomar em consideração qualquer teoria da raça que proclame uma virtude na sua existência.
  Não tenho medo de discutir a raça. Porque estou preparado para aceitar que as raças existem, por isso digo: ' De onde vieram? O que é que isso significa?'
  Considero raça e espécies coisas diferentes. Claro que concordo que os humanos como todo são uma espécie, mas dentro da família temos raças diferentes. É como no mundo animal. Temos cães, gatos, baleias, veados, etc., mas dentro de cada 'espécie' temos diferentes raças. Pode ser uma descrição simplista mas vejam os tipos de cães. Temos o Pastor-Alemão, Schnauzer, Fox-Terrier, etc. São todos cães, mas são diferentes - em aparência, tamanho e temperamento. podem procriar entre eles, se vocês desejarem, mas o sentido de individualidade pode perder-se. Na minha opinião, acontece o mesmo com os humanos. Caminhamos todos sobre duas pernas; temos uma cabeça, braços e pernas. Pensamos, temos necessidades e precisamos de amar e ser amados. Comunicamos uns com os outros e sempre nos vimos a nós próprios relacionados uns com os outros. Não temos dúvidas de que somos, contudo, 'animais' muito especiais ( reparo que pode haver uma certa oposição religiosa ao aplicar este termo, mas a minha intenção rapidamente se tornará clara). Essencialmente, temos consciência de nós próprios. Os filósofos debateram durante muito tempo essa noção. É a capacidade de pensar em termos 'superiores', termos morais, distinguir quereres e necessidades, regular impulsos, de agir socialmente que torna a espécie humana especial. Porque deveríamos ficar surpreendidos se a natureza equipou cada uma das raças de modo ligeiramente diferente?
  Notamos grandes diferenças entre as diferentes raças. Não apenas a cor da pele, mas também o modo como agimos em diferentes situações e as nossas capacidades físicas. A raça Negróide é geralmente uma raça mais física do que a Asiática e 'Indiana' ou Europeia ou Semita. Tem conhecidas capacidades em certos desportos e nas canções, no trabalho físico e na resistência à dor. Por outro lado, alguns grupos Asiáticos, têm um Q.I. mais elevado do que o homem branco para o refinamento da vida e da cultura. Os Esquimós superam os outros em Q.I., mas os grupos negros parecem ficar no fundo da tabela. Por conseguinte, o homem branco é mais prático e científico. Os grupos Semíticos têm a capacidade de formar intrincados sistemas religiosos e místicos Gnósticos. Nalguns aspectos, cada um é melhor do que o outro e noutros pior.
  Há também diferenças dentro das raças por meio das quais cada uma pode ser dividida em vários sub-grupos. Basta olharmos para os Europeus. São 'brancos', mas o Italianos são diferentes dos Suecos, os Alemães são cultural e temperamentalmente diferentes dos Russos. Mas esta diferença é primeiramente baseada nos seus hábitos, cuja influência vem do meio onde vivem. Há também certas variações anatómicas.
Suponho que podemos aplicar esse princípio à raça Asiática. Os Japoneses são mais 'claros' do que os Vietnamitas; os Chineses Han têm constituição mais robusta do que os Tailandeses. E por aí fora.
  Esta incrível diferença entre raças e as variações dentro delas é uma coisa natural. Podemos dizer que Deus fez com que assim fosse (se temos uma visão religiosa) ou podemos dizer que foi obra da natureza (se formos evolucionistas) . De qualquer dos modos, é um facto da existência. Parece ser um facto assombroso.
As diferenças na humanidade não podem ser uma coisa censurável mas apenas aceite. Uma vez aceites, devemos celebrá-las. Atrever-me ia a dizer que uma discussão adequada da existência da raça implica uma revolução na filosofia do politicamente correcto.
  Quando viajo, atravesso uma fronteira e entro instantaneamente num mundo diferente. Ir apenas da Alemanha à Suíça é espantoso. A paisagem pode ser a mesma, como a arquitectura, mas as pessoas e as culturas são diferentes. E é isso que eu gostaria de preservar. Olhem para a Europa actual. Temos tantas outras raças a viver em Inglaterra que mais de metade de Londres não é branca. Se formos a alguns países no mundo Árabe, pensamos estar no Paquistão. Se formos à Índia, encontramos pessoas que querem ser Americanas a falar somente em Inglês. Que efeito tem toda esta pseudo-globaização na economia deste país? E como fica a sobrevivência do património dos povos nativos? Sou Alemão, mas não ficaria ofendido se pessoas num país Africano ficassem incomodadas com demasiados turistas nossos ou homens de negócios tornando-se pragas de si próprios. Não me ofende como 'homem branco'  saber que os Malaios pintaram grandes slogans nos anos 50 que diziam: ' Britânicos, vão para casa!' Também não fiquei chateado quando a Líbia mandou para casa muitos dos seus trabalhadores de fora ou quando a Nigéria mandou embora os seus imigrantes ilegais. Nem fico ofendido quando um Islandês pergunta porque precisam de Indianos no seu país. Parece que se cada um estivesse no seu sítio, sendo si mesmo, haveria menos tensão e mais respeito?
  Onde acaba toda esta pressão para 'um único mundo'? Imaginem se todas as pessoas do mundo ficassem da cor do chocolate, com cabelo e olhos escuros? Sem mais Asiáticos, Africanos, Europeus ou Indianos. Assumamos então que não haveria mais diversidade racial entre as pessoas. Assumamos que poderíamos ensinar uma língua, usar um sistema monetário, quebrar as barreiras e fronteiras e viver num enorme mercado. Onde estaria o benefício? Pensamos mesmo que isso em si mesmo formaria uma melhor humanidade ou um mundo mais harmonioso, próspero ou cultural? E, obviamente, podemos assumir que se colocássemos a humanidade numa misturadora essa diferenciação não reapareceria, numa nova forma talvez, mas que ainda funcionasse nos assuntos humanos?

sábado, 23 de junho de 2012

Saqueadores

Saqueadores


Atravessam mares e continentes
Em busca de novos proveitos
Causam a morte e a destruição
Às leis humanas não estão sujeitos

Em nome da paz e liberdade
Da tolerância e democracia
Levam a guerra a toda a parte
É a Nova Ordem que se anuncia

Devastam cidades e aldeias
Constroem muros e barreiras
Lançam bombas, saqueiam a Terra
A ganância não tem fronteiras

Democratas e ditadores
Em cumplicidades obscenas
Partilham repastos e honrarias
A discórdia irrompe, há problemas

A arma dos banqueiros
É usura desmedida
As notícias dos jornalistas
Manipulação consentida

Políticos e magnatas
Aliados e cleptocratas
Os corruptos andam a monte
Governo Mundial no horizonte

N. Afonso, 15.06.2012

sexta-feira, 22 de junho de 2012

Antimoderno

Antimoderno


O Homem moderno
Da Natureza afastado
Não tem Deus ou sequer Lei
Crê que viver é um fardo

N. Afonso, 9.06.2012

terça-feira, 12 de junho de 2012

Foi a Revolução Francesa uma vingança dos Templários?



Foi a Revolução Francesa uma vingança dos Templários?, por Julius Evola

'' Escreveu-se muito a respeito da Revolução Francesa e sobre a causa que a originou; habitualmente reconhece-se o papel que, pelo menos como preparação intelectual, tiveram certas sociedades secretas e especialmente a dos denominados Iluminados. Uma tese específica e mais avançada é aquela que a tal respeito sustenta que a Revolução Francesa tenha representado uma vingança dos Templários. Já num período extremamente próximo àquela revolução apareceu uma ideia semelhante. Seguidamente De Guaita haveria de retomá-la e aprofundá-la.
  A destruição da Ordem dos Cavaleiros Templários foi um dos acontecimentos mais trágicos e misteriosos da Idade Média. Os Templários eram uma Ordem cruzada de carácter tanto ascético como guerreiro, fundada em 1118 por Hugues de Paiyns. Exaltada por S.Bernardo na sua De Laude Novae Militiae, haveria de tornar-se rapidamente numa das ordens cavalheirescas mais ricas e poderosas. De forma improvisada em 1307, a mesma foi acusada pela Inquisição. A iniciativa partiu essencialmente de uma figura sinistra de soberano, Filipe O Belo de França, que impôs a sua vontade ao débil Papa Clemente V, conseguindo para si as grandes riquezas da Ordem. Acusava-se os Templários de professarem só em aparência a fé cristã, de terem um culto secreto e uma iniciação alheia ao cristianismo e até mesmo anti-cristã. Como foram as coisas verdadeiramente é algo que não se pôde nunca saber com exactidão. De qualquer forma o processo concluiu com uma condenação: a Ordem foi dissolvida, a maior parte dos Templários foi massacrada e terminou na fogueira. Foi queimado também o Grão-Mestre, Jacques de Molay. Este justamente na fogueira profetizou os dias da morte dos responsáveis da destruição da Ordem, do rei e do pontífice. Filipe O Belo e Clemente V haveriam de morrer exactamente dentro dos termos profetizados pelo Grão-Mestre Templário para apresentar-se perante o tribunal divino. Diz-se que alguns Templários que se salvaram do massacre se refugiaram na corte de Robert Bruce, Rei da Escócia, e que se integraram em certas sociedades secretas preexistentes. De qualquer modo, de acordo com a tese mencionada ao início, certas derivações dos Templários teriam continuado de maneira subterrânea até ao próprio período da Revolução Francesa e teriam preparado, como uma verdadeira vingança, a queda da casa de França. Que algumas sociedades secretas se tivessem organizado para fins revolucionários, isso é algo desvelado pela investigaçao histórica. Uma mera casualidade - o facto de que um correio das mesmas fosse abatido por um raio - permitiu descobrir documentos dos Iluminados que continham planos revolucionários. Mais importante ainda foi a reunião secreta que se realizou em Frankfurt em 1780. Foi descrita de maneira novelesca por Alexandre Dumas no seu famoso livro Joseph Balsamo, onde seguramente se serviu dos apontamentos, publicados em Itália em 1790 e em França em 1791, do processo realizado pelo Santo Ofício a este misterioso personagem conhecido pelo nome de Cagliostro. Na sua exposição Cagliostro fala daquela reunião, faz menção aos Templários, diz que os convocados se comprometeram a derrubar a casa de França; que logo após a queda desta monarquia a sua acção haveria de dirigir-se para Itália tendo em mira particularmente Roma, sede do Papado.
  A tudo isto devem juntar-se as revelações feitas em 1796 por parte de Gassicourt num livro sumamente raro, Le Tombeau de Jacques Molay. No mesmo sustenta-se que '' os feitos da Revolução Francesa têm um signo Templário ''. Segundo o autor o próprio nome dos Jacobinos - ou seja, os principais promotores da Revolução - viria do Grão-Mestre Templário, Jacques de Molay, e não, como geralmente se crê, da igreja de religiosos jacobinos, lugar de reunião que a organização secreta tinha escolhido por mera casualidade. E a consigna da seita, que seria mantida sucessivamente em altos graus de associações similares, compunha-se das iniciais do nome completo do Grão-Mestre Templário.
  Outra circunstância estranha e significativa está representada pela escolha do lugar onde foi mantido prisioneiro o último rei de França, Luís XVI; lugar que só abandonaria no momento de subir ao patíbulo. Ainda que a Assembleia Nacional lhe houvesse destinado como cárcere um local do palácio do Luxemburgo, ele foi encerrado no Templo, ou seja, na sede dos Templários de Paris: quase como símbolo da vingança que golpeava, na pessoa do seu último descendente, a dinastia culpada da destruição da Ordem, no lugar que a mesma tinha ocupado.
  São também mencionados outros elementos como apoio de tal tese. Naturalmente, uma investigação que, como esta, assenta sobre o que se desenrolou na sombra, por detrás dos bastidores da história conhecida, encontra dificuldades particulares. No caso específico, ainda admitindo todos os indícios, ficaria por verificar se existiu uma continuidade entre os agentes revolucionários em torno de '89 e os verdadeiros Templários medievais, podendo também ser que os primeiros tenham tomado dos segundos apenas o nome, ainda que pelo contrário tenham obedecido a forças obscuras de um tipo muito diferente. De qualquer modo a hipótese aqui assinalada é conhecida por parte daqueles que se debruçam sobre o que bem poderia ser denominada como a dimensão em profundidade da história. ''

Publicado no Boletim Evoliano #10- Mai-Ago.2010

domingo, 10 de junho de 2012

A Suástica



A Suástica, por René Guénon (Tradução minha)


'' Uma das formas mais relevantes do que chamámos cruz horizontal, isto é, a cruz traçada no plano em que representa um determinado estado de existência, é a figura da suástica, que parece relacionar-se directamente com a Tradição Primordial, já que se encontra entre os mais diferentes e afastados países, e desde as épocas mais remotas; longe de ser um símbolo exclusivamente oriental, como por vezes se pensa, é um dos que estão mais espalhados desde o Extremo Oriente ao Extremo Ocidente, pois até se encontra entre alguns povos indígenas da América. É certo que na actualidade se conserva sobretudo na Índia e Ásia central e oriental, e que talvez só nestas regiões se conhece o seu significado, mas no entanto, na própria Europa não desapareceu por completo. Na Antiguidade encontramos este símbolo particularmente entre os Celtas e na Grécia pré-helénica; também no Ocidente foi na Antiguidade um dos emblemas de Cristo e perdurou como tal até finais da Idade Média.
  Dissemos noutra parte que a suástica é, essencialmente, o 'signo do pólo'; se a comparamos com a figura da cruz inscrita numa circunferência, facilmente nos damos conta de que se trata, no fundo, de dois símbolos de certo modo equivalentes; a rotação em redor do centro fixo, em vez de estar representada pelo traçado da circunferência, na suástica apenas está indicada pelas linhas acrescentadas aos extremos dos braços da cruz, que formam com estes ângulos rectos; estas linhas são tangentes à circunferência e indicam a direcção do movimento nos pontos correspondentes. Como a circunferência representa o mundo manifestado, o facto de que esteja implícita indica claramente que a suástica não é uma imagem do mundo, mas da acção do Princípio em relação ao mundo.
  Se relacionamos a suástica com a rotação de uma esfera, com a esfera celeste em volta do seu eixo, supor-se-á traçada no plano equatorial e o ponto central será, como já explicámos, a projecção do eixo perpendicular a este plano. Em relação ao sentido da rotação indicado pela figura, a sua importância é apenas secundária e não afecta o significado geral do símbolo; de facto, podem encontrar-se as duas formas, indicando uma rotação da direita para a esquerda e da esquerda para a direita, e sem que isso suponha sempre a intenção de indicar uma qualquer oposição entre elas. Se é certo que, em alguns países e e em certas épocas, se produziram cismas em relação à tradição ortodoxa, cujos partidários quiseram voluntariamente dar à figura uma orientação contrária à usual no meio de que se separaram, para afirmarem o seu antagonismo por meio de uma manifestação externa, isso não afecta de modo nenhum o seu significado essencial que continua a ser o mesmo.
  Por outro lado, por vezes encontram-se associadas as duas formas; neste caso podemos considerar que representam uma mesma rotação vista dos dois pólos ao mesmo tempo; isto relaciona-se com o simbolismo muito complexo dos dois hemisférios, que não nos é possível abordar aqui.
  Nem sequer podemos pretender desenvolver todas as considerações que o simbolismo da suástica pode causar, as quais, por outra parte, não se relacionam directamente com o objetco do presente estudo; mas não nos foi possível silenciar esta especial forma de cruz, devido à sua considerável importância do ponto de vista tradicional; por isso, cremos que foi necessário dar pelo menos estas indicações ainda que algo precisas, às quais nos limitaremos para não nos levar a dissertações demasiado extensas. ''

René Guénon ' La Esvástica' em ' El simbolismo de la Cruz ', (cap. X)', Obelisco, Barcelona, 1987