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terça-feira, 31 de dezembro de 2013

quarta-feira, 18 de dezembro de 2013

Uma capa

Uma capa

Uma capa fiz do meu canto
Debaixo a cima
Bordada
De antigas mitologias;
Mas tomaram-na os tolos
Para exibi-la ao mundo
Como se por eles fora lavrada.
Deixa, canto, que a tomem
Pois maior feito existe
Em andar nú.

(W.B. Yeats)



domingo, 15 de dezembro de 2013

Sonhos e inspiração



'' O sonho é tido, já desde a mais remota antiguidade, na conta de uma forma de inspiração. É em sonhos que os deuses falam às vítimas, etc. Convém no entanto observar que os indivíduos que trataram dos seus sonhos, até estes últimos tempos, com incomparáveis cuidados, cuidados esses puros e livres de preocupações literárias ou médicas, o não fizeram com vista a estabelecerem relações com qualquer Além. Podemos dizer que ao sonharem eles se sentiram menos inspirados do que nunca. Narram com fidelidade objectiva tudo quanto se lembram nesses sonhos. Podemos até dizer o seguinte: fora da narrativa de um sonho, em nenhumas outras circunstâncias se consegue alcançar objectividade maior. Isto porque no caso vertente nada se interpõe entre a realidade e o indivíduo que dorme, como acontece no estado de vigília com aquilo a que chamamos censura, razão, etc. Mas imaginem que ao transcreverem uma tal realidade eles exprimem parvoíces dum estilo imperfeito; caso isso suceda, logo se denunciam como gente traiçoeira. Já não descrevem um sonho, fabricam literatura. Cá por mim exijo sempre que os sonhos que me dão a ler sejam escritos em língua escorreita.'' (Louis Aragon, Tratado do Estilo, Antígona, Lisboa, 1995)

domingo, 8 de dezembro de 2013

Comércio e mercadoria



''Um político que assistia a uma sessão da Câmara de Comércio pediu a palavra, mas viu a sua pretensão negada com base na alegação de nada ter a ver com o comércio.
-Senhor Presidente- disse um membro idoso, levantando-se: considero a objecção infundada. Este cavalheiro tem uma estreita e íntima relação com o comércio: ele próprio é uma mercadoria.''
(Ambrose Bierce ''Esopo emendado&outras fábulas fantásticas'', Antígona, Lisboa, 1996)

sábado, 23 de novembro de 2013

Fala Maldoror




''Vi, durante toda a minha vida, sem uma única excepção, os homens, de ombros estreitos, praticarem actos estúpidos e numerosos, embrutecerem os seus semelhantes e perverterem as almas por todos os meios. Ao motivo das suas acções chamam: glória. Vendo tais espectáculos, quis rir como os outros; mas isso, bizarra imitação, era-me impossível. Peguei num canivete, cuja lâmina tinha um gume afiado, e rasguei a minha carne nos sítios onde se juntam os lábios. Por um instante, julguei que atingira o meu fim. Olhei num espelho esta boca  mortificada pela minha própria vontade! Cometera um erro! O sangue que corria abundantemente das duas feridas impedia-me, aliás, de perceber se era realmente aquele o riso dos outros. Porém, após alguns momentos de comparação, dei-me conta que o meu riso não se assemelhava ao dos humanos, ou seja, que não me ria. Vi os homens, de cabeça feia e olhos terríveis afundando-se em órbitas sombrias, superarem a dureza do rochedo, a rigidez do aço fundido, a crueldade do tubarão, a insolência da juventude, o furor insensato dos criminosos, as traições do hipócrita, os actores mais extraordinários, a força de carácter dos padres, e os seres exteriormente mais dissimulados, os mais frios dos mundos e do céu; fatigarem os moralistas a descobrir o seu coração e fazerem cair sobre si  a cólera implacável das alturas. Vi-os a todos ao mesmo tempo: ora com o punho mais robusto erguido para o céu , como o de uma criança, já perversa, afrontando a mãe, provavelmente animados por algum espírito infernal, com os olhos ensombrados por um remorso simultaneamente pungente e rancoroso, num silêncio glacial, não ousando exprimir as profundas e ingratas meditações encerradas no seu íntimo, de tal modo a povoavam a injustiça e o horror, e entristecendo de compaixão o Deus de misericórdia; ora, ao longo de todo o dia, desde o começo da infância até ao fim da velhice, espalhando anátemas inacreditáveis, destituídos de senso comum, contra tudo o que respira, contra si próprios e contra a Providência, prostituindo mulheres e crianças e desonrando assim as partes do corpo consagradas ao pudor. Então, os mares revoltam as águas, afundam nesses abismos as tábuas; os furacões, os tremores de terra derrubam as casas; a peste, as várias doenças dizimam as famílias devotas. Mas os homens de nada se apercebem. Vi-os também a corar, a empalidecer de vergonha devido à sua conduta neste mundo; raramente. Tempestades, irmãs dos furacões; firmamento azulado, cuja beleza não admito; mar hipócrita, imagem do meu coração; Terra, de seio misterioso; habitantes das esferas; todo o universo; Deus, que o criaste com magnificiência, é a ti que invoco: mostra-me um homem que seja bom!...Mas que a tua graça decuplique as minhas forças naturais; já que, perante o espectáculo desse monstro, posso vir a morrer de assombro: há quem morra por menos''. 
(Conde de Lautréamont/Isidore Ducasse, ''Os Cantos de Maldoror'', Poesias I&II, Antígona, 2009)

terça-feira, 19 de novembro de 2013

'' Que me importa a vida? ''

'' Breve ou longa, que me importa a vida?
não temos de morrer um dia?

Por muito que se puxe e estenda o fio
não chegará um dia ao seu limite?

Quer vivas infeliz e na miséria
ou mesmo seguro e afortunado,

Tudo se equivale no dia de morrermos.
Quer a sorte nada te tenha oferecido

Quer, deste mundo, mil terras te haja dado,
tanto faz, no dia em que morrermos.

Fortuna e infortúnio: apenas sonho!
e o sonho só vale como sonho,

não há diferença no dia de morrermos.''

Rudaki, Poeta persa(880-940), in '' Irão- viagem ao país das rosas'', Ésquilo, 2007

domingo, 17 de novembro de 2013

quarta-feira, 23 de outubro de 2013

Orwell e a falsificação da História







'' Sei que se tornou moda dizer que a maior parte da História registada é mentira. Estou pronto a acreditar que a História, na sua maior parte, se apresenta inexacta e tendenciosa; mas aquilo que é peculiar ao nosso tempo é o abandono da ideia de que a História poderia ser escrita com verdade. No passado, as pessoas mentiam deliberadamente, ou coloriam inconscientemente aquilo que escreviam, ou lutavam pela verdade com a certeza de cometerem bastantes erros; mas faziam tudo isto sabendo que os factos existiam e que era possível descobri-los. Na prática, havia sempre uma massa factual com a qual quase todas as pessoas concordavam. É justamente esta base comum de acordo, da qual decorre que todos os seres humanos são uma única espécie animal, que o totalitarismo destrói. O desígnio resultante desta forma de pensar é um mundo em que o Chefe, ou uma qualquer súcia governante, supervisa não apenas o futuro mas também o passado. Esta prospectiva assusta-me muito mais do que as bombas- e depois das nossas experiências dos últimos anos, não se trata aqui de uma afirmação gratuita.''
(George Orwell, 1942)

terça-feira, 15 de outubro de 2013

O Lago





O Lago

'' Tive eu na mocidade ocasião
De achar do mundo vasto um lugar
O qual eu não podia mais amar...
Porquanto me encantou a solidão
Dum lago agreste, por negros rochedos
Circundado, e por altos arvoredos.

Mas quando a Noite o seu sudário
Deitava em seu lugar, e em tudo à volta,
E o vento misterioso andava à solta...
E o vento um canto murmurava...
Ah...era então que eu despertava
Para o terror do lago solitário.

Contudo, tal terror não me assustava,
Mas com tremores me deleitava...
Um sentimento tal cujo mistério
Excede mil jazigos de minério...
E mesmo o teu Amor... que eu cobiçava.

No veneno da onda havia dolo,
E em seu vórtice um esquife apropriado
A quem aí buscava o consolo
De um espírito, erguendo transviado,
Em seu imaginário isolado,
Um Éden no sombrio e torvo lago.''

(Edgar Allan Poe, ''O Lago'', in ''Obra poética completa'', Tinta-da-China, Lisboa, MMIX)



sexta-feira, 11 de outubro de 2013

O Silêncio Branco






'' A natureza serve-se de inúmeros artifícios para inculcar no homem a noção da sua finitude- o fluir incessante das marés, a fúria da tormenta, o abalo do terramoto, o longo retombar da trovoada- mas de todos eles o mais temível, o mais aterrador, é a impassibilidade do Silêncio Branco. Todo o movimento cessa, o ar esvai-se, o céu torna-se de chumbo; o mais pequeno sussurro soa a sacrilégio e um homem assusta-se e intimida-se com o som da sua própria voz. Único átomo de vida a deslocar-se na vastidão espectral de um mundo morto, treme perante a sua própria audácia, toma consciência que a sua existência pouco mais vale que a de um verme. Surgem-lhe então pensamentos estranhos, inopinados, e parece querer revelar-se-lhe o mistério de todas as coisas. Apodera-se dele o temor da morte, de Deus, do universo- a esperança na Ressureição e na Vida, o anseio de imortalidade, a porfia vã da essência aprisionada- e é então, e só então, que o homem caminha apenas na companhia de Deus. '' (Jack London, ''O Filho do lobo'', Antígona, Lisboa, 2001)






sábado, 21 de setembro de 2013

Desafio



Desafio

'' Tenho uma vaga lembrança
De uma história que se conta
Em certa velha lenda espanhola
Ou numa crónica antiga

Foi quando o bravo rei Sancho
Morreu às portas de Zamora
À qual o seu grande exército  montava cerco
Acampado na planície.

Don Diego de Ordenez
Apresentou-se sozinho diante de todos
E gritou bem alto o seu desafio
Aos que defendiam as muralhas da cidade.
A todos os moradores de Zamora,
Aos nascidos e aos que estavam para nascer,
Desafiou como traidores
Em tom desdenhoso e altivo.

Insultou os vivos nas suas casas
E os mortos nas suas campas,
As água dos rios
E o vinho, o azeite e o pão.

Há um exército bem mais poderoso
Que nos assalta de todos os lados
Um exército infindo e faminto
Que luta em todas as portas da vida.
Os milhões que a pobreza oprime
Que vêm disputar o nosso pão e vinho
E nos acusam de traição
Nós, os que estamos vivos, e os mortos também.

E sempre que me sento à mesa do banquete
Onde a festa e as canções não têm fim
No meio da alegria e da música
Ouço os seus gritos terríveis,

Vejo os seus rostos tristes e descarnados
Fitando o salão iluminado
E as mãos exangues e estendidas
Para apanhar as migalhas que caem.

Dentro de casa há luz e abundância,
No ar pairam bons odores,
Mas lá fora, reinam o frio e a noite,
A fome e o desespero.

E no acampamento faminto
Ao vento, ao frio e à chuva,
Cristo, o grande Senhor dos Exércitos,
Jaz morto na planície. ''

H.W. Longfellow

sábado, 7 de setembro de 2013

América


'' A América é a terra da alegria, como a Alemanha é a terra da metafísica e a França a terra da fornicação. Aqui, a bufonaria não conhece descanso. Os Estados Unidos são, incomparavelmente, o maior espectáculo do mundo. Um espectáculo que exclui todo o tipo de palhaçadas que rapidamente me entediam- o cerimonial monárquico, o malabarismo fastidioso da haute politique ou a atitude séria perante a política, por exemplo-, pondo antes a ênfase no tipo de situações que me divertem incessantemente: as discussões brejeiras dos demagogos, as deliciosas e engenhosas manigâncias dos mestres da pulhice, a perseguição a bruxas e hereges, as tentativas desesperadas dos homens inferiores para treparem até ao Céu. Temos entre nós, em constante actividade, bobos que se destacam dos de qualquer outro grande país; não apenas vinte ou trinta, mas verdadeiras manadas deles. Aquilo que noutro país cristão qualquer está irremediavelmente votado a um tédio incurável- coisas que, pela sua natureza, parecem desprovidas de toda a piada-, é aqui elevado a um patamar de bufonaria que nos faz rir a bandeiras despregadas. ''

(H.L.Mencken, ''Os Americanos'', Antígona, 2005)

quinta-feira, 29 de agosto de 2013

The missing shepherd

The missing shepherd

A man went strolling
Through green hills unknown
He saw a black snake crawling
And found himself alone

A strange voice was whispering
His best friend's name
A brown cane was glittering
It was not in vain

He picked up the cane
Of his shepherd friend
And ran through fields of grain
Of that mysterious land

To the village he went back
Told the people to come with him
He put a necklace in his neck
They went searching for his friend unseen

Several hours have passed
Of the shepherd they saw no sign
But the flock was seen at last
Down in the hill, right before nine

They kept searching for the man
That dark night no rest they had
Nor they shall weep again
When the shepherd's friend goes to bed.

N. Afonso

quarta-feira, 14 de agosto de 2013

''Os nossos políticos não são gente''



'' Os nossos políticos não são gente. Nenhum deles mostra ter tido na sua vida uma daquelas crises espirituais donde se emerge talvez ferido para sempre, mas psiquicamente homem, personalidade espiritual.  '' (Fernando Pessoa, fragmentos da 'Carta a um herói estúpido'.)

terça-feira, 6 de agosto de 2013

'' Nada de comissões''






Vidas(III)

'' Num esconso onde me fecharam aos doze anos conheci o mundo, ilustrei a comédia humana. Num celeiro aprendi história. Numa gala nocturna duma cidade do Norte, vi todas as mulheres dos antigos pintores. Numa velha passagem de Paris ensinaram-me as ciências clássicas. Numa incursão magnífica, assistido por todo o Oriente, completei minha obra imensa e fiz a minha insigne retirada. Fermentei o meu sangue. Fui-me restituído. Que de tudo isto nem a ideia fique. Sou realmente de além túmulo, e nada de comissões.'' (Jean- Arthur Rimbaud, Vidas(III), in '' Iluminações/Uma cerveja no inferno'', Assírio&Alvim, 2007, tradução de Mário Cesariny)

sábado, 29 de junho de 2013

No meio de nós

No meio de nós

No meio de nós há muros e barreiras
Palavras artificiais e gestos inúteis

Circunspectos olhares e troça
Paredes de cal que nos separarm,
Grinaldas de flores e cactos verdejantes

Sorrisos cúmplices e complacentes,
Mãos enlameadas que se tocam
Na envolvente penumbra da noite

Silêncios que perduram no tempo,
Desfaçatez iníqua que se infiltra
Pelas vidraças enquanto o vento sopra

Entre nós há destroços que se movem,
Hoje aqui e amanhã ali...

E não se esquece a pérfida monotonia
Que nos abate, implacavelmente
Nem o latir dos velhos cães
Nas ruas desertas e frias.

Resta um só segredo por contar,
Uma frágil narrativa que nos define.

N. Afonso


quarta-feira, 12 de junho de 2013

Yang e Yin


 Yang e Yin

Sou o Sol radiante que anuncia o amanhecer,
Tu és a lua sombria na escuridão
Sou o fogo vermelho que te consome,
Tu a água fresca que tudo lava.

Sou o masculino imóvel que se move,
Aparente contradição sem o ser.
Tu és o feminino volátil que se abre.

Sou o dia claro que te envolve,
És a noite escura que assusta e atrai.
Sou o branco, tu és o negro.

Eu sou o Yang, tu és o Yin,
Os opostos que se completam.

N. Afonso

quarta-feira, 29 de maio de 2013

O ruído da cidade

O ruído da cidade

As ruas da cidade pejadas de escombros
Humanos! Ruínas de si próprios.
Aqui e ali, reluzem trémulas luzes,
Fugazes néons acendem-se e apagam-se

Na mais largas ruas e avenidas
O ruído é intenso e ensurdecedor:
Buzinas estridentes, barulhentas sirenes.
Invadem-te sons, cores e cheiros variadíssimos

A agitação é grande e sufoca-te
O ar poluído, as mentes dúbias,
Toda esta pressa que te esmaga.

Dizes: estará também Deus nestes lugares?
Segues em frente, não te deténs.
E partes, rumo a outras paragens.

Guiado por uma indizível melancolia
Dás por ti já noutro sítio, longe dali.

O céu está tingido de vermelho
Quando páras junto a um límpido riacho.
Estás só, tu e os teus pensamentos

Parece que tudo ficou para trás
E se desvaneceu num ápice.
Toda a dispersão, ansiedade e loucura.
Todos os nomes parecem um só,
Na face nítida do luar que te acolhe.

Duro, insondável, silencioso!
Uma fortaleza contra intrusos
Recolhes em ti mesmo e repousas
E já é dia quando regressas a casa...

N. Afonso

sexta-feira, 24 de maio de 2013

Poema sem data

Poema sem data

Um poema não tem data,
É de ontem e de hoje.
Tem no futuro a sua morada
E no presente a sua espada.

N. Afonso

domingo, 28 de abril de 2013

Cortejo de derrota

Cortejo de derrota

Passam e desfilam, como nas feiras
De si mesmo envaidecidos
São tantos nas suas fileiras
Multidões que enchem as ruas

Anoitece e eles continuam
Na marcha rumo ao abismo
Os seus egos inflamados
Pelos seus líderes enganados

Ofuscados pela espuma dos dias
Nos bastidores os seus guias
Neste cortejo de derrota
São os mestres da mentira

Barafustam, quais animais em fúria
Mas caminham sempre em frente
Chega a hora da batalha final
É um momento sem igual

Quando a vitória lhes escapa
Já é tarde para voltar atrás
Agora sabem que não podem vencer
Este combate que os desfaz

Os que manobram nos bastidores
Também os muitos do cortejo
Para longe são atirados
E impiedosamente derrotados

N. Afonso, 8.04.2013

sábado, 20 de abril de 2013

Marcas do Tempo

Marcas do Tempo

As fendas que se abriram
Nessa velha muralha
Ruínas de uma fortaleza
Há muito abandonada

São as marcas do Tempo
Que ali parece haver parado
No alto dessa colina
De vistas amplas sobre o vale

Nessa terra desolada
Já se travaram grandes batalhas
Muitos exércitos dizimados
Por outros foram vencidos

Observa bem o que sobrevive
Dessas épocas remotas
Aí já não se ouvem
Os risos e gritos das gentes

Nem o bulício do mercado
A agitação das ruas
As armas dos guerreiros
Ou os passos do inimigo

Apenas restam os animais
As aves sobrevoam os céus
Azuis, limpos como antes
Mas as fontes não secaram

Os rios ainda correm
O Sol ainda brilha
As árvores ainda dão fruto
A natureza persiste

Quando tudo parece morrer
Pensas nesses tempos idos
Agarra o presente!
Pois é tudo o que tens.

N. Afonso, 3.01.2013

sexta-feira, 12 de abril de 2013

Roda da vida

Roda da vida

As peças estão todas dispersas
O puzzle inacabado
O enigma por resolver
A vida é como um jogo

Uma roleta que gira sem parar
Não sabes como termina
Nem como nem quando começou

Se é obra de um Deus maior
Mero fruto do acaso
Se a Ciência a pode explicar
Ou a Religião compreender

N. Afonso, 24.02.2013


 

sábado, 6 de abril de 2013

O legado

O legado

O legado imaterial
Que te deixaram
Escondido sob imensas
Camadas de terra

Essa herança antiga
Que outrora pensavas
Estar perdida

Oculta num qualquer
Lugar remoto
Talvez morta, até

Há muito esquecida
Nas brumas do passado
Mas que agora reaparece
Tão viva no presente

Esse legado perene
Está agora nas tuas mãos
Porque é teu
E nunca deixou de ser

N. Afonso, 01.01.2013

quarta-feira, 3 de abril de 2013

Solidão e decadência

Solidão e decadência

A ímpia devastação
Das coisas sagradas
Os símbolos desdenhados
Ou mal interpretados

O campo onde crescem
As sementes da perdição
O palco onde se exibem
Todos os vícios e aberrações

Tudo treme e ameaça ruir
Mentiras, meias verdades
Todo o género de maldades

Morre o que tantos estimavam
Como as verdades de outrora
O que ontem se disse
Hoje já nada vale

O que hoje se escreve
Amanhã já nada conta
As promessas feitas
Que não podem ser cumpridas

As lágrimas de crocodilo
Derramadas na praça pública
Os aplausos fingidos
Dos bajuladores

A solidão solene
Da incompreensão
A voz inaudível
Que nos sussurra

A verdade que habita
No labirinto interior
Do nosso ser

N. Afonso, 24.02.2013



 


terça-feira, 19 de fevereiro de 2013

Usurpação

Usurpação

A coroa que usas
Nem sequer te pertence
Não é tua por
Direito próprio

O trono que ocupas
Também não é teu
A espada que empunhas
Não conhece a tua mão

A vida que vives
Não é a tua
O sorriso que finges
Não disfarça nada

O chão que pisas
Tem outro dono
O lar em que habitas
A quem o roubaste?

As roupas que vestes
São do teu vizinho
As mentiras que dizes
Foram por outros inventadas

As verdades que escondes
Quando as revelarás?

N. Afonso, 16.01.2013


sexta-feira, 15 de fevereiro de 2013

Poema incógnito

Poema incógnito

Num pedaço de papel
Tão branco e fino
Como a água transparente

Nele escrevi um poema
Era breve e ousado
De negro mascarado

Não sei para quem o escrevi
O que pensava nesse momento
Quem o leu depois de mim
Ou se alguém o guardou no pensamento

N. Afonso, 16.01.2013

terça-feira, 29 de janeiro de 2013

Viandante

Viandante

Corres pela floresta escura
Mas não sabes nem onde
Nem quando parar

Nem qual o caminho
De regressso a casa
Ou sequer se há
Um regresso

Uma vontade
Uma promessa
Ou uma casa
Aonde voltar.

N. Afonso, 27.12.2012

segunda-feira, 21 de janeiro de 2013

quinta-feira, 17 de janeiro de 2013

Entre o sonho e o sono

Entre o sonho e o sono

Dorme. Tudo é como um sonho.
O teu corpo está inerte
Sobre os lençóis de seda

E entre o sonho e
O sono profundo
Nesse intervalo imperceptível
Sabes o que mora aí?

Nessa linha de tempo
Tão ténue e subtil
E para lá do sono profundo
Existe algo também

A tua beleza de mármore
O teu rosto alvo e frio
Um vislumbre de imortalidade
Mas o fim ali tão perto

De súbito acordas, assustada
E em breve já nada és...

N. Afonso, 01.01.2013

sexta-feira, 11 de janeiro de 2013

Evola sobre o Zen e a vida quotidiana






Julius Evola (tradução minha)

Eugen Harrigel,  Zen e a Arte do Tiro com Arco(Assírio&Alvim, Lisboa, 1997)
 [Zen nell’arte del tirar d’arco (Turin: Rigois, 1956)]

Kakuzo Okakura, O Livro do chá, Biblioteca Editores Independentes/Cotovia
 [II Libro del Te (Rome: Fratelli Bocca, 1955)]


 '' O primeiro destes pequenos livros, traduzido do Alemão para Italiano, é único no seu género, como uma introdução directa e universalmente acessível ao espírito das disciplinas fundamentais e ao comportamento da civilização do Extremo-Oriente, especialmente do Japão. Herrigel é um Professor Alemão que foi convidado a leccionar Filosofia numa Universidade Japonesa, e decidiu estudar o espírito tradicional do país nas suas mais típicas formas vivas. Teve um especial interesse em compreender o Budismo Zen e, mesmo que possa parecer estranho, disseram-lhe que o melhor modo de o fazer seria estudar a prática tradicional do Tiro com Arco. Portanto, estudou incansavelmente essa arte durante cinco anos, e o livro descreve como o seu progresso nesse lugar e a sua penetração gradual na essência do Zen avançaram lado a lado com o Tiro ao Arco, condicionando-se um ao outro reciprocamente, levando a uma mais profunda transformação do próprio autor.
  A essência do Zen como uma concepção do mundo é, como é sabido, a sua especial interpretação do estado do nirvana, o qual, parcialmente através da influência do Taoísmo, é entendido no Japão não como um estado de beatitude ascética evanescente, mas como algo interior, uma libertação interna, uma estado livre das febres, das provações, das amarras do ego, um estado que pode ser preservado enquanto se esteja comprometido com todas as actividades e em todas as formas da própria vida quotidiana. Graças a isso, a vida como um todo adquire uma dimensão diferente; é compreendida e vivida de um  modo diferente. A ''a ausência do ego'' em que, em conformidade do espírito do Budismo, o Zen insiste vincadamente, não é no entanto aparentada com a apatia ou a atonia; dá origem a uma mais elevada forma de acção espontânea, de firmeza, de liberdade e serenidade na acção. Isto pode ser comparado a um homem que se agarra a alguma coisa convulsivamente e quando a larga, adquire uma serenidade superior, um elevado sentido de liberdade e firmeza.
  Depois de chamar a atenção para todos estes pontos, o autor nota a existência no Extremo-Oriente de artes tradicionais que surgem igualmente desta liberdade do Zen e oferecem os meios para as alcançar, através da instrução requerida para a sua prática. Por estranho que possa parecer, o espírito Zen reside nas Artes Extremo-Orientais ensinadas pelos mestres da pintura, da cerimónia do chá, do arranjo floral, tiro com arco, luta, esgrima e por aí em diante. Todas estas artes têm um aspecto ritual. Existem, além disso, aspectos inefáveis graças aos quais a verdadeira mestria em qualquer destas artes não pode ser atingida a menos que tenhamos adquirido esclarecimento interior e transformação da consciência-própria comum, o que torna a mestria numa espécie de sacramento palpável.
  Assim, Herrigel diz-nos como no aprender a esticar o arco, a pouco e pouco, por meios dos problemas envolvidos nesta arte, tal como ainda é ensinada no Japão, ele chegou ao conhecimento e à compreensão interior que buscava. Compreendeu que o tiro com arco não era um desporto mas antes uma espécie de acção ritual e uma iniciação. Para adquirir um conhecimento completo dele, teve de chegar à eliminação do próprio ego, ultrapassar toda a tensão, e alcançar uma espontaneidade superior. Só então o relaxamento muscular paradoxalmente se uniu à força máxima; o arqueiro, o arco e o alvo tornaram-se um todo. A flecha voou como por si própria e encontrou o alvo quase sem apontar. Posta nestes termos, a mestria alcaçada é um grau de espiritualidade ou ''Zen'', não como uma teoria e filosofia mas como uma verdadeira experiência, como um mais profundo modo de ser.
  Ao descrever situações deste tipo, baseado na experiência pessoal, o pequeno livro de Herrigel é importante não apenas porque introduz o leitor no espírito de uma civilização exótica mas também porque nos permite ver sob uma nova luz algumas das nossas próprias antigas tradições. Sabemos que na antiguidade, em certa medida, também na Idade Média, tradições ciosamente conservadas, elementos da religião, ritos, e mesmo mistérios eram associados com várias artes. Existiam ''bens'' para cada uma destas artes e ritos de admissão para as praticar. A iniciação aos ofícios e profissões em certas guildas e collegia ocorrriam paralelamente à iniciação espiritual. Assim, para mencionar um caso tardio, o simbolismo próprio da arte maçónica dos construtores medievais serviu de base para a primeira Franco-Maçonaria, que retirou daí as alegorias e procedimentos da ''Grande Obra''. Pode, portanto, ser isso nisto tudo que o Ocidente outrora sabia algo do que havia sido preservado até hoje no Extremo-Oriente em ensinamentos tais como ''o caminho do arco'' ou a '' arte da espada '' mantidos para serem idênticos com ''o caminho do Zen''numa positivamente singular forma de Budismo.
   O Autor do segundo pequeno livro, e viramo-nos agora para a edição Italiana do mesmo, é um Japonês interessado, acima de tudo, em problemas estéticos que estudou as  modernas escolas de arte na Europa e América mas manteve-se fiel às suas próprias tradições e comprometeu-se com uma acção eficiente e resoluta no seu próprio país contra a introdução de tendências Europeizantes. O seu  O Livro do chá confirma na parte central devotada mais estreitamente ao assunto em consideração o que temos estado a dizer.
  Houve ligações estreitas no Extremo-Oriente entre o Zen, as ''escolas de chá'' e o ''culto do chá''. Na verdade, diz-se que a cerminónia do chá, tal como era elaborada no Japão no século XVI, derivava do muito mais antigo ritual zen de beber chá de uma única chávena perante a estátua de Bodhidharma. De um modo geral, este rito cerimonial, é uma das muitas formas nas quais o príncípio Taoísta da plenitude no mínimo é expressa.
  Lu-Wu no seu livro Cha-Ching  havia já afirmado que ao preparar o chá, a mesma ordem e a mesma harmonia havia ele observado que do ponto de vista Taoísta reina em todas as coisas.
  O autor acrescenta que é parte da religião da arte da vida. ''O chá tornou-se um pretexto para o desfrutar de momentos de meditação e desapego feliz, no qual o anfitrião e os seus convidados tomam parte.'' Tanto o sítio como a estrutura das salas, construídos para este propósito especial,- as salas de chá(sukiya)- seguem o princípio ritualístico; são simbólicos. O variegado e parcialmente irregular caminho que, dentro do quadro da arte Extremo-Oriental da jardinagem leva à sala de chá é emblemática daquele estado preliminar de meditação que leva ao quebrar dos laços com o mundo exterior, ao desapego das preocupações e interesses da vida comum.
  O estilo da sala em si é de uma simplicidade refinada. Apesar da aparência despida e indigente que possa ter aos olhos de um Ocidental, segue ao detalhe uma intenção concreta. A selecção e uso dos materiais certos apelam a um cuidado infinito e atenção ao pormenor, tanto assim é que o custo de uma sala de chá perfeita pode ser superior ao de uma portada. O termo '' sukiya ''- diz o autor- originalmente significava ''a casa de imaginação'', a alusão não era de devaneios e fantasias mas referia-se à faculdade de nos desligarmos do mundo empírico, de nos recordarmos de nós próprios e tomar refúgio num mundo ideal.
  Outras expressões usadas pelos Mestres do rito do Chá são ''casa do vazio'' e ''a casa da assimetria''. A primeira destas expressões remonta directamente à noção de Vazio própria da metafísica Taoísta ( e aqui podemos recordar a parte que desempenha esta noção, quase como uma chave ou segundo plano no elemento ''aéreo'' da pintura do Extremo-Oriente). A expressão ''casa de assimetria'' refere-se ao facto de que algum pormenor é sempre, intencionalmente, deixado por terminar e o cuidado que é tido para organizar as coisas de modo a dar impressão de uma lacuna.  A razão para isto é que o sentido de plenitude e harmonia não deve surgir de algo já fixo e repetível, mas deve ser sugerido por uma incompletude exterior que impele alguém a concebê-los internamente por meio de um acto mental.
  O autor trata também das ligações existentes entre a arte do chá e aquela do seleccionar e arranjar as flores na sukiya, de novo em conformidade com o simbolismo e uma sensibilidade especial. Muitas vezes uma única flor correctamente seleccionada e colocada é o único ornamento da ''casa do vazio''.
  Por último, o autor lembra-nos que uma filosofia especial da vida quotidiana é acessória em relação ao rito do chá, tanto que na actual terminologia Japonesa, sobre um homem com falta de sensilibilidade para com os aspectos trágico-cómicos da vida pessoal diz-se que tem ''falta de chá'', enquanto que sobre aqueles que cedem a impulsos e sentimentos incontrolados diz-se que ''têm demasiado chá''. Isto traz-nos de volta àquele ideal de superioridade equilibrada, subtil e calma, que tem um papel tão grande na atitude geral do homem do Extremo-Oriente.
  Se pensarmos no amplo uso do chá no Ocidente, e das circunstâncias deste uso na nossa vida social, mais especiamente entre os círculos da moda, seria natural estabelecer comparações que mostrariam que, mesmo neste campo de lugares-comuns, como no plano das ideias, todas as coisas do Oriente são diminuídas quando importadas para o mundo Ocidental. ''

East and West, vol. 7, no. 3, October 1956, pp. 274–76



quarta-feira, 9 de janeiro de 2013

Epígrafe

Epígrafe

És a tua própria lei-
Um lobo solitário
E não apenas mais
Um qualquer número
Perdido na multidão
Imensa do rebanho

N. Afonso, 27.12.2012

sábado, 5 de janeiro de 2013

Do perigo

Do perigo

É perigoso viver
Andar sobre cordas instáveis
Estar suspenso
No alto do penedo

Pois se um qualquer
Passo te trai
Ou o mais leve olhar
Te desconcentra

Apenas um grande
Equilíbrio te pode manter
Se queres evitar
A queda fatal

Eis o que te digo:
Se vives sem perigo
Não penses que vives
Porque sem perigo
Nem sequer há viver

N. Afonso, 18.12.2012

quinta-feira, 3 de janeiro de 2013

Afirmação

Afirmação

Virilidade sem machismo
Feminilidade sem feminismo
Força sem opressão
Liberdade sem libertinagem
Identidade sem racismo

N. Afonso, 10.12.2012