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terça-feira, 18 de dezembro de 2012
Natal e o Solstício de Inverno
Natal e o Solstício de Inverno, por Julius Evola
'' Poucos suspeitam de que os feriados (i.e., os dias santos Católicos) actuais, no século dos arranha-céus, da rádio, dos grandes movimentos de massas são celebrados e continuam...uma remota tradição, levando-nos de volta aos tempos em que quase na alvorada da humanidade se iniciou o movimento ascendente da primeira civilização Ariana; uma tradição na qual, além disso, a grande voz daqueles homens se expressa, mais do que uma crença em particular.
Um facto desconhecido da maioria tem de ser desde já lembrado; que nas suas origens a data do Natal e a do ano novo coincidiam, esta data, não sendo arbitrária, mas ligada a um evento cósmico preciso, o Solstício de Inverno.
O Solstício de Inverno é, de facto, a 25 de Dezembro, que é a data do Natal, daí conhecida, mas que nas suas origens tinha um significado essencialmente solar. Isso aparece também na Roma Antiga: a data de Natal na Roma Antiga era a do nascer do Sol, o Deus Invicto, Natalis Solis Invicti. Com isso, como dia do Sol novo- dies soli novi - na época imperial, anunciava o início do ano novo, o novo ciclo. Mas este ''nascimento solar'' de Roma no período imperial, por sua vez, referia-se a uma tradição de algum modo mais remota de origem Nórdico-Ária.
Do restabelecer, Sol, a divindade solar, já aparecera entre os deuses indígenas, ou seja, entre as divindades de origem Romana, transmitidas de ainda mais distantes ciclos de civilização. Na realidade, a religião solar do período imperial, em larga medida, tinha o significado de uma recuperação e quase um renascimento, infelizmente alterada por vários factores de decomposição, de uma muito antiga herança Ariana.
Na tradição Ária e Nórdica e na própria Roma, o mesmo tema tinha uma importância não apenas mística e religiosa mas sagrada, heróica e cósmica ao mesmo tempo. Era a tradição de um povo, a quem a mesma natureza, a mesma grande voz de que escrevi, naquela época, a tradição de um mistério de ressurreição, do nascimento do renascimento de um início não somente de '' luz '' e nova vida, mas também de Imperium, na mais alta e augusta acepção da palavra ''.
Julius Evola '' Roma e il natale solare nella tradizione nordico-aria '', in « La difesa della raza » (1940).
quarta-feira, 12 de dezembro de 2012
A chave e a porta
A chave e a porta
Qundo abres algumas portas
Com a mesma chave
Não penses que essa chave
Abre todas as portas
Nem digas que aquelas
Que não conseguiste abrir
Não podem ser abertas
Por qualquer outra chave
N. Afonso, 27.11.2012
terça-feira, 4 de dezembro de 2012
Algumas cartas de René Guénon
'' Amen deve certamente relacionar-se com o egípcio Amoun (que, coisa bizarra, dá Numa se se lê ao contrário); o sentido principal parece ser o de mistério, coisa oculta ou invisível; daí deriva Emounah, que significa fé. Em AmeN e AUM, há duas letras comuns em três, A e M, que representam dois opostos ou complementares; N indica o produto dos dois termos, e por isso está colocado depois, enquanto que o U indica o laço que os une, e por isso, situa-se entre eles. Unicamente, os dois complementares não parecem ser considerados desde o mesmo ponto de vista nos dois casos, figurados por símbolos hieroglíficos correspondentes. Existe aí algo que ainda não está muito claro e será necessário que pense nisso de novo para falarmos uma próxima vez. '' (Carta a Guido de Giorgio, L'Instant et l' Eternité.)
'' Alberto Magno e São Tomás estavam vinculados a uma organização hermética, mas é possível que a denominação de '' Rosa-Cruz'' não estivesse ainda em uso nessa época, eu de facto, não creio que possa ter aparecido antes do século XIV. ( Carta com destinatário desconhecido, de 5 de Maio de 1935. Publicada em Etudes Traditionelles.)
'' No que se refere à inicição baseada no esoterismo cristão, tudo o que pode conhecer-se dela é mais de ordem cosmológica e '' hermética'' que puramente metafísica ; isto está relacionado sem dúvida com a mentalidade ocidental, mais do que com o Cristianismo em si mesmo. Seria não obstante pouco provável que nunca tivesse havido outra coisa, mas deve ter estado sempre reservada a um número muito pequeno e não deixou vestígios aparentes; de outro modo, seria de supor que se trata de uma tradição incompleta na sua própria essência; mas o anterior nunca se pôde expressar de outro modo que por uma '' transposição '' dos mesmos símbolos a um nível superior.
-Em todo o caso, relativamente à fundação dos três principados romanos, o simbolismo hermético é de facto evidente, como você diz; e o mesmo em relação a tudo o que diz respeito aos contos e ao chamado '' folclore ''; até é raro, creio, que este simbolismo se haja conservado tão claramente em casos semelhantes... Não pensaria fazer algum trabalho sobre todas estas questões? Sem dúvida valeria a pena, especialmente quando o tema, sobretudo desde este ponto de vista, não deve ter sido muito estudado até agora. ''
(Carta a Vasile Lovinescu de 19 de Maio de 1935. Publicada em Symbolos, nº17-18, Guatemala, 1999.)
- '' O que diz Clemente de Alexandria da Esfinge, confirmando as conclusões às quais vós chegastes, é muito interessante. Parece além disso que não haja uma relação muito directa entre a Esfinge grega e a egípcia, mesmo que seja designada pelo mesmo nome; que pensais vós? - Muitos pretenderam ver na Esfinge egípcia um símbolo quaternário ( combinação dos quatro animais da visão de Ezequiel e do Apocalipse), mas na realidade não está composta visivelmente mais do que por dois elementos, cabeça humana e corpo de leão. Nunca vi nenhum exemplar da Esfinge egípcia alada ,senão unicamente, como variante, esfinges com cabeça de carneiro (símbolo de Amon)''.
(Carta a Ananda K. Coomaraswamy, 2 de Outubro de 1945)
'' Canselliet ( que não é Fulcanelli, mas que se faz passar por seu continuador) não tem certamente nada de um ''mestre ''; além disso, do ponto de vista tradicional, não pode vincular-se mais ou menos efectivamente mais do que a uma dessas correntes desviadas no sentido '' naturalista'' às quais me referi em diversas ocasiões''. (Carta a Eric Ollivier, 26 de Setembro de 1946)
- O essencial, como dizeis, é estar de acordo no fundo. A palavra '' alquimia '' dá lugar, de facto, na maioria das pessoas, à confusão de que falais e várias vezes o assinalei; creio que '' hermetismo '' seria mais conveniente ( ou melhor se poderia dizer '' alquimia espiritual '' para evitar qualquer equívoco). '' Gnosis '' tem um sentido muito mais amplo, e por outra parte, tem o inconveniente de que muitos confundem '' gnosis '' e '' gnosticismo '', o que no entanto não é a mesma coisa. Em relação à '' tradição primordial '', a expressão não seria aplicável nesse caso, pois não se trata na realidade mais do que uma forma derivada, como além do mais o são todas as que se conhecem na actualidade.
É muito exacto dizer que o sal é apenas a união do enxofre e do mercúrio, ou não é mais precisamente o produto desta união? A confusão filosófica do ser não-manifestado com o nada é sem dúvida enorme, mas há que precaver-se de que tudo o que os homens são incapazes de conceber ( e o horizonte intelectual dos filósofos modernos está muito estreitamente limitado) , não pode realmente surgir-lhes mais que como o nada ''.
( Carta a Louis Cattiaux, 20 de Fevereiro de 1950)
'' Estamos muito de acordo no que concerne ao sal; mas não me explicou bem que faleis do '' enxofre terrestre '' e do '' mercúrio celeste '': isso não vem tornar a terra masculina e o Céu feminino, frente ao simbolismo tradicional, mais geralmente admitido? ( Digo mais geralmente porque parece que a tradição dos antigos egípcios seja a excepção; mas sabem-se realmente tão poucas coisas dela que é impossível conhecer a razão desta anomalia pelo menos aparente e bastante surpreendente à primeira vista) ''.
( Carta a Louis Cattiaux, 20 de Março de 1950)
Cartas extraídas de '' Sobre Hermetismo '' (Tradução minha)
sábado, 1 de dezembro de 2012
O guerreiro e a cidade
'' O guerreiro e a cidade '', por Dominique Venner ( Tradução minha)
'' Em 1814, no final das guerras Napoleónicas, Benjamin Constant escreveu com alívio: '' Chegámos à era do comércio, a era que deve necessariamente substituir a da guerra, tal como a da guerra teve necessariamente que precedê-la ''. Ingénuo Benjamin! Assumiu amplamente a ideia de progresso indefinido, apoiando o advento da paz entre homens e nações.
A era do comércio suave substituindo a da guerra...Sabemos o que o futuro fez desta profecia! A era do comércio foi imposta, certamente, mas pela multiplicação das guerras. Sob a influência do comércio, ciência e indústria- por outras palavras, o progresso- as guerras tomaram mesmo proporções monstruosas que ninguém poderia ter imaginado.
Havia, no entanto, alguma verdade na falsa previsão de Constant. Se as guerras continuaram e até prosperaram, por outro lado, a figura do guerreiro perdeu o seu prestígio social em benefício da duvidosa figura do mercador. Esta é a nova era em que ainda vivemos, até ao momento.
A figura do guerreiro foi destronada, mesmo quando a instituição militar durou mais do que qualquer outra na Europa desde 1814. Perdurou desde o tempo da Íliada- trinta séculos - transformando-se, adaptando-se a todas as mudanças nas épocas, guerras, sociedades e regimes políticos, mas ainda continua a preservar a sua essência, que é a religião do orgulho, o dever e a coragem. Esta permanência, pelo contrário, só é comparável com outra instituição imposta: a Igreja ( ou as Igrejas). O leitor está chocado! Uma surpreendente comparação! E mesmo assim...
O que é o exército desde a Antiguidade? É uma instituição quase religiosa, com a sua própria história, heróis, leis e ritos. Uma instituiçaõ muito antiga, até mesmo mais velha do que a Igreja, nascida de necessidades tão antigas como a humanidade, e que agora está a deixar de existir. Entre os Europeus, nasceu de um espírito que é específico deles e os quais- ao contrário da tradição Chinesa, por exemplo- fazem da guerra um valor em si mesmo. Por outras palavras, nasceu de ume religião cívica surgida da guerra, cuja essência, numa palavra, é a admiração pela coragem no rosto da morte.
Esta religião pode definir-se como a da cidade no sentido Grego ou Romano da palavra. Numa linguagem mais moderna, é a religião da pátria, grande ou pequena. Como Heitor disse há trinta séculos no livro XII da Íliada, para aludir a um mau presságio: '' Não é por um bom resultado que lutamos pela nossa pátria ''. ( XII, 243). A valentia e a pátria estão ligadas. Na última batalha da guerra de Tróia, sentindo-se ameaçado e condenado, Heitor chorou de desespero com o clamor: '' Ó bem! Não pretendo morrer sem lutar, nem sem glória, nem sem alcançar nenhum feito que seja contado nos tempos vindouros. '' (XXII, 304-305). Encontramos este lamento de orgulho trágico em todas as épocas de uma história que glorifica o herói desafortunado, engrandecido por uma derrota épica: as Termópilas, a canção de Rolando ou Dien Bien Phu.
Cronologicamente, a linha guerreira aparece antes do Estado. Rómulo e as suas belicosas companhias traçaram primeiro os futuros limites da Cidade e estabeleceram-na pela sua lei inflexível. Por haver transgredido a lei, Remo foi sacrificado pelo seu irmão. Então, e só então, os fundadores raptaram as Sabinas para assegurarem a sua descendência. Na fundação do Estado Europeu, a ordem dos guerreiros livres precede a das famílias. Foi por isso que Platão viu Esparta muito mais próxima do modelo da Cidade Grega do que Atenas. (1)
Ainda que possam parecer débeis, os exércitos Europeus actuais constituem ilhas de ordem num meio em seu redor que desmoronou, onde Estados fictícios promovem o caos. Ainda que diminuído, um exército permanece como uma instituição baseada na férrea disciplina e participante da disciplina cívica. Por esta razão, esta instituição carrega em si uma semente genética de restauração, não por procurar o poder ou miltarizar a sociedade, mas para reafirmar a primazia da ordem sobre a desordem. Foi o que as compagnonnages da espada fizeram depois da desintegração do Império Romano e tantas outras depois disso. ''
Notas:
1- In '' Les metamorphoses de la cité, essai sur la dynamique de l'Occident (Paris, Flammarion, 2010), baseado na leitura de Homero, Pierre Manent realça o papel das aristocracias de tipo guerreiro na fundação da cidade antiga.
quinta-feira, 29 de novembro de 2012
Inominável
Inominável
Sei que rostos se escondem
Por detrás das máscaras
Que mãos tocam
As cordas invisíveis
Qual a melodia que soa
No final do dia
Os segredos ditos
No escuro do silêncio
Que homens se erguem
No meio da tempestade
Qual a voz que acalma
A criança que chora
Quando o luar brilha
Na noite sem fim...
Qual o código secreto
Que abre o cofre
E os nomes inscritos
No livro da vida
Os rios que nascem
Em montanhas ocultas
Quais os seios que amamentam
A sede de conhecimento
As sementes que germinam
Nos mais férteis campos
E qual a porta que guarda
O templo de luz...
N. Afonso, 27.11.2012
Sei que rostos se escondem
Por detrás das máscaras
Que mãos tocam
As cordas invisíveis
Qual a melodia que soa
No final do dia
Os segredos ditos
No escuro do silêncio
Que homens se erguem
No meio da tempestade
Qual a voz que acalma
A criança que chora
Quando o luar brilha
Na noite sem fim...
Qual o código secreto
Que abre o cofre
E os nomes inscritos
No livro da vida
Os rios que nascem
Em montanhas ocultas
Quais os seios que amamentam
A sede de conhecimento
As sementes que germinam
Nos mais férteis campos
E qual a porta que guarda
O templo de luz...
N. Afonso, 27.11.2012
quarta-feira, 28 de novembro de 2012
Cardos ao Sol
Cardos ao Sol
Brilha alto o Sol
No seu esplendor
O dia é fugaz para quem vive a correr
Mas longo para quem é paciente
A estrada é estreita
Para o viajante
Os passos lentos em silêncio
A viagem é árdua e penosa
O tempo gira
Em teu redor
Essa espiral sem fim
Crescem flores no precipício
E espinhos nos verdes cardos
Um manto de névoa
Cobre o topo
De uma montanha
De incertezas
Existe beleza numa
Planície estéril
E algum orgulho
No abismo criador?
N. Afonso, 21.11.2012
Brilha alto o Sol
No seu esplendor
O dia é fugaz para quem vive a correr
Mas longo para quem é paciente
A estrada é estreita
Para o viajante
Os passos lentos em silêncio
A viagem é árdua e penosa
O tempo gira
Em teu redor
Essa espiral sem fim
Crescem flores no precipício
E espinhos nos verdes cardos
Um manto de névoa
Cobre o topo
De uma montanha
De incertezas
Existe beleza numa
Planície estéril
E algum orgulho
No abismo criador?
N. Afonso, 21.11.2012
terça-feira, 27 de novembro de 2012
Selo supremo
Selo supremo
Derretem os gelos
Os medos e ilusões
Congela a angústia
Depois morre a inércia
Das cinzas da dor
Renasce a força
Um rochedo da vontade
Há um sopro que apaga
As velas frágeis da mentira
Vê como se desfazem
As torres altas da iniquidade
Despedaçam-se ídolos e ideais
Com pés de barro fabricados
Também eles apodreceram
Repletos do bolor da falsidade
Tudo cai à tua passagem
Homens, muros, poderes, ideias
Selo ímpar da verdade!
N. Afonso, 15.11.2012
Derretem os gelos
Os medos e ilusões
Congela a angústia
Depois morre a inércia
Das cinzas da dor
Renasce a força
Um rochedo da vontade
Há um sopro que apaga
As velas frágeis da mentira
Vê como se desfazem
As torres altas da iniquidade
Despedaçam-se ídolos e ideais
Com pés de barro fabricados
Também eles apodreceram
Repletos do bolor da falsidade
Tudo cai à tua passagem
Homens, muros, poderes, ideias
Selo ímpar da verdade!
N. Afonso, 15.11.2012
domingo, 25 de novembro de 2012
terça-feira, 20 de novembro de 2012
quarta-feira, 14 de novembro de 2012
sábado, 10 de novembro de 2012
sábado, 27 de outubro de 2012
Europa patria nostra
Europa patria nostra
Desde tempos remotos
Nesta terra habitaram
Agricultores e pastores
Conquistadores e navegadores
Gentes nómadas e sedentárias
Culturas e línguas várias
Há mais de um século
Que Nietzsche partiu
Antes dele Goethe triunfou
Homero, estás já longe...
E Péricles, o que nos deixou?
A Grécia dos primórdios
De outros mais nos falou
Apolo, Leónidas e Zeus
Dórios, Espartanos e Aqueus
Oráculo de Delfos, Platão, Aristóteles
Entre tantos outros
Que enumerar não vou
Ó Europa, pátria nossa
O teu legado não esquecemos
Nos escombros de agora
Muitos de nós perecemos
Aqui se ergueram sacros templos e catedrais
Mas hoje o que resta, ó venais?
Governaram reis e imperadores
Lutaram plebeus, santos e aristocratas
Brilharam poetas, sábios e guerreiros
Também iniciados e cavaleiros
Cantaram monges e trovadores
Fomos pagãos antes de cristãos
Roma foi até Monarquia
Antes do Império ver o dia
Tantos povos
Por aqui passaram
Neste velho continente
Que em ruínas deixaram
Iberos e Celtas
Germanos e Vikings
Eslavos e Helenos
Deles todos nos lembremos
Preservemos Dante e Shakespeare
Camões, Yeats e Pessoa
Rilke, Leopardi, Holderlin
Olha Eliade em Lisboa!
Junger foi dissidente
Vida cheia e longa viveu
Codreanu legionário
Pelos seus combateu
Também Evola e Guénon
A sua herança nos deixaram
Arda a chama
Da nossa revolução
Não perdoamos a traição.
N. Afonso, 23.10.2012
Desde tempos remotos
Nesta terra habitaram
Agricultores e pastores
Conquistadores e navegadores
Gentes nómadas e sedentárias
Culturas e línguas várias
Há mais de um século
Que Nietzsche partiu
Antes dele Goethe triunfou
Homero, estás já longe...
E Péricles, o que nos deixou?
A Grécia dos primórdios
De outros mais nos falou
Apolo, Leónidas e Zeus
Dórios, Espartanos e Aqueus
Oráculo de Delfos, Platão, Aristóteles
Entre tantos outros
Que enumerar não vou
Ó Europa, pátria nossa
O teu legado não esquecemos
Nos escombros de agora
Muitos de nós perecemos
Aqui se ergueram sacros templos e catedrais
Mas hoje o que resta, ó venais?
Governaram reis e imperadores
Lutaram plebeus, santos e aristocratas
Brilharam poetas, sábios e guerreiros
Também iniciados e cavaleiros
Cantaram monges e trovadores
Fomos pagãos antes de cristãos
Roma foi até Monarquia
Antes do Império ver o dia
Tantos povos
Por aqui passaram
Neste velho continente
Que em ruínas deixaram
Iberos e Celtas
Germanos e Vikings
Eslavos e Helenos
Deles todos nos lembremos
Preservemos Dante e Shakespeare
Camões, Yeats e Pessoa
Rilke, Leopardi, Holderlin
Olha Eliade em Lisboa!
Junger foi dissidente
Vida cheia e longa viveu
Codreanu legionário
Pelos seus combateu
Também Evola e Guénon
A sua herança nos deixaram
Arda a chama
Da nossa revolução
Não perdoamos a traição.
N. Afonso, 23.10.2012
quinta-feira, 25 de outubro de 2012
Mercados e mercadores
Mercados e mercadores
Dançam cisnes no lago
Ao som de uma celestial melodia
Negoceiam os mercadores ao longe
Perde-se o rasto ao dia
Onde estão agora os deuses,
Mitos, rituais e sacrifícios?
Chegaram há muito os vendilhões
Da honra e da coisa pública
Mercado é palavra santa
Na boca hipócrita dos que a veneram
É falsa a moralidade burguesa
Nos templos há muito instalada
Tudo é para vender:
Pátrias, terras, ilusões
Povos, dignidade e acções
É o modo liberal de viver
A idolatria do vil metal
Desfaz sonhos e esperanças
A ganância não tem igual
Haja ouro nas suas lembranças
N. Afonso, 20.10.2012
Dançam cisnes no lago
Ao som de uma celestial melodia
Negoceiam os mercadores ao longe
Perde-se o rasto ao dia
Onde estão agora os deuses,
Mitos, rituais e sacrifícios?
Chegaram há muito os vendilhões
Da honra e da coisa pública
Mercado é palavra santa
Na boca hipócrita dos que a veneram
É falsa a moralidade burguesa
Nos templos há muito instalada
Tudo é para vender:
Pátrias, terras, ilusões
Povos, dignidade e acções
É o modo liberal de viver
A idolatria do vil metal
Desfaz sonhos e esperanças
A ganância não tem igual
Haja ouro nas suas lembranças
N. Afonso, 20.10.2012
terça-feira, 23 de outubro de 2012
Faina interior
Faina interior
Sussurras-me uns versos suaves
Mas já cá não estás
Quando o Inverno chegar
Partes no comboio da madrugada
Atracam os barcos no cais
Perdem-se uns homens no mar
Um dia, outros no seu lugar,
Lançarão também as redes
Em busca de peixe
Nesse mar profundo e escuro
A noite é longa e fria
A vida é breve e tensa
As ondas levam e trazem
A memória é um arquivo interior
Repleto de viagens inacabadas
O teu regresso está próximo
O caminho de volta
É perigoso, lento mas valioso
Avisto o teu vulto ao longe
Chegas e ficas. É isto. Permanecemos.
N. Afonso, 20.10.2012
Sussurras-me uns versos suaves
Mas já cá não estás
Quando o Inverno chegar
Partes no comboio da madrugada
Atracam os barcos no cais
Perdem-se uns homens no mar
Um dia, outros no seu lugar,
Lançarão também as redes
Em busca de peixe
Nesse mar profundo e escuro
A noite é longa e fria
A vida é breve e tensa
As ondas levam e trazem
A memória é um arquivo interior
Repleto de viagens inacabadas
O teu regresso está próximo
O caminho de volta
É perigoso, lento mas valioso
Avisto o teu vulto ao longe
Chegas e ficas. É isto. Permanecemos.
N. Afonso, 20.10.2012
domingo, 21 de outubro de 2012
O que ficará de pé
O que ficará de pé
É lícito perguntar
Se alguém sabe
O que ficará de pé
Quando tudo se desmoronar
Serão homens ou animais
Pedras ou vegetais
O Sol ou o luar
Quando tudo terminar?
Somos a última barreira
A última linha de resistência
Antes do ataque final
Ao coração da existência
Ninguém sabe o dia
A hora ou o local
Que não te domine a agonia
No momento crucial
E fica também a saber
Que o fim vem antes
De um novo início
É algo que não podes perder
N. Afonso, 09.10.2012
É lícito perguntar
Se alguém sabe
O que ficará de pé
Quando tudo se desmoronar
Serão homens ou animais
Pedras ou vegetais
O Sol ou o luar
Quando tudo terminar?
Somos a última barreira
A última linha de resistência
Antes do ataque final
Ao coração da existência
Ninguém sabe o dia
A hora ou o local
Que não te domine a agonia
No momento crucial
E fica também a saber
Que o fim vem antes
De um novo início
É algo que não podes perder
N. Afonso, 09.10.2012
terça-feira, 16 de outubro de 2012
O corpo de arco-íris no Budismo Tibetano
'' Através destes métodos avançados do dzogchen (grande perfeição), os praticantes consumados podem conduzir as suas vidas até um fim extraordinário e triunfante. Quando morrem, permitem que o seu corpo seja reabsorvido de volta na essência de luz dos elementos que o criaram e, consequentemente, o corpo material dissolve-se em luz e desaparece completamente. Este processo é conhecido pela designação de '' corpo de arco-íris '' ou '' corpo de luz '', porque a sua dissolução é frequentemente acompanhada por manifestações espontâneas desse género. Os antigos tantras do dzogchen - e os escritos dos grandes mestres - distinguem diferentes categorias deste fenómeno espantoso e sobrenatural, pois houve tempo em que, apesar de não ser vulgar, era razoavelmente frequente.
Em geral, uma pessoa que sabe que está prestes a atingir o '' corpo de arco-íris '' pede que a deixem sozinha e sem ser perturbada durante sete dias num quarto ou numa tenda e, no oitavo, só as unhas e os cabelos, as impurezas do corpo, são encontrados.
Para nós isto pode ser uma coisa muito difícil de acreditar, mas a história factual da linhagem do dzogchen está cheia de exemplos de indivíduos que atingiram o '' corpo de arco-íris '' e, tal como Dudjom Rinpoche costumava dizer, não se trata apenas de histórias antigas. Entre os muitos exemplos, gostaria de escolher um dos mais recentes e famosos, com o qual tenho uma ligação pessoal, ocorrido em 1952 em Timor-Leste e testemunhado por muita gente. O homem que o conseguiu, Sogam Namgyal, era o pai do meu tutor e irmão do lama Tsetsen, cuja morte descrevi ao princípio deste livro. Era um homem muito simples e humilde, que ganhava a vida como escultor de pedra itinerante, gravando mantras e textos sagrados. Alguns dizem que na juventude fora caçador e que recebera os ensinamentos de um grande mestre, mas na realidade, ninguém sabia que se tratava de um praticante, daqueles que designamos por « ocultos «. Algum tempo antes da sua morte era visto a subir as montanhas, onde se sentava recortado contra o céu, olhando para o espaço, e compunha as suas próprias canções e cânticos, que entoava em substituição dos tradicionais. Ninguém fazia ideia do que ele andava a fazer, até que um dia adoeceu ou pareceu adoecer, e, por estranho que possa parecer, mostrou-se cada vez mais feliz. Quando a doença se agravou, a família chamou mestres e médicos, e o filho disse-lhe que não se esqueceria dos seus ensinamentos, mas Namgyal sorriu e respondeu: '' Já os esqueci a todos e, de qualquer modo, não há nada para recordar. Tudo é ilusão mas estou confiante de que tudo correrá bem ''. Um pouco antes da sua morte, aos setenta e nove anos, afirmou: '' Tudo o que peço é que, quando eu morrer, não toquem no meu corpo durante uma semana ''. Quando faleceu, a família enrolou-lhe o corpo em panos e convidou monges e lamas a praticarem por ele. Colocaram o corpo numa divisão da casa e não puderam deixar de notar que, apesar de Namgyal ter sido uma pessoa alta e forte, não tiveram qualquer problema para o pôr nesse quarto, era como se o corpo tivesse encolhido. Ao mesmo tempo, foi vista por toda a casa uma extraordinária exibição de luz, com as cores do arco-íris. Ao sexto dia, quando o olharam, verificaram que o corpo se tornava cada vez mais pequeno, e ao oitavo, na manhã em que deveria realizar-se o funeral, chegaram os homens para levarem o corpo, mas ao desenrolarem os panos encontraram apenas dentro destes as unhas e os cabelos.
O meu mestre Jamyang Khyentse pediu que lhos enviassem e confirmou que se tratava de um caso de « corpo de arco-íris ''.
Sogyal Rinpoche '' O livro Tibetano da vida e da morte, cap.X '' o corpo de arco-íris ''.
Jamyang Khyentse Chokyi Lodro
sábado, 13 de outubro de 2012
Evola e a Tradição
'' Enquanto ' transcendência imanente ' o tradere, a transmissão (logo, a Tradição) não se refere a uma abstracção que se possa contemplar, mas a uma energia que, apesar de invisível não deixa de ser real. É aos chefes e à elite que cabe assegurar essa transmissão, no interior de certos quadros institucionais, variáveis mas homólogos na sua finalidade. É evidente que esta se encontra perfeitamente garantida enquanto é paralela à continuidade rigorosamente controlada de um mesmo sangue. De facto, quando a cadeia de transmissão se interrompe é muito difícil restabelecê-la. Que a Tradição seja o oposto de tudo o que é democracia, igualitarismo, primado da sociedade sobre o Estado, poder que vem de baixo, etc., é inútil sublinhá-lo. ''
(Julius Evola, '' O Arco e a Clava, 1968)
sexta-feira, 12 de outubro de 2012
quarta-feira, 10 de outubro de 2012
Segredos dos séculos
Segredos dos séculos
Jaz além um guerreiro
Sangue derramado em vão?
Que segredos se escondem
Nos confins dos séculos?
Perderam-se talvez
No brandir das espadas
No erguer dos escudos
E no galope dos cavalos
Na fúria indomável
Dos que combateram
Nos prantos e clamores
Dos muitos que caíram
No orgulho dos vencedores
E nos rostos dos vencidos
Na prosa dos historiadores
Ou nos versos dos poetas
Nas páginas em branco
Que ficaram por escrever...
Na nossa memória o passado
Tempos e lugares distantes
A continuidade do presente
E o futuro por forjar.
N. Afonso, 25.09.2012
Jaz além um guerreiro
Sangue derramado em vão?
Que segredos se escondem
Nos confins dos séculos?
Perderam-se talvez
No brandir das espadas
No erguer dos escudos
E no galope dos cavalos
Na fúria indomável
Dos que combateram
Nos prantos e clamores
Dos muitos que caíram
No orgulho dos vencedores
E nos rostos dos vencidos
Na prosa dos historiadores
Ou nos versos dos poetas
Nas páginas em branco
Que ficaram por escrever...
Na nossa memória o passado
Tempos e lugares distantes
A continuidade do presente
E o futuro por forjar.
N. Afonso, 25.09.2012
terça-feira, 9 de outubro de 2012
F. Pessoa e a incompreensão pelo silêncio
'' Não sei o que diga. Pertenço à raça dos navegadores e dos criadores de impérios. Se falar como sou não sou entendido, porque não tenho Portugueses que me escutem. Não falamos eu e os que me são meus compatriotas uma linguagem comum. Calo. Falar seria não me compreenderem. Prefiro a incompreensão pelo silêncio. '' (Fernando Pessoa/Bernardo Soares, Livro do desassossego).
terça-feira, 25 de setembro de 2012
Soneto cósmico
Soneto cósmico
O mundo é plural e distinto
Multiforme e complexo
É Um no Todo
E o Todo é Um
Estrelas e planetas
Asteróides e cometas
Galáxias e constelações
Respostas e interrogações
O Tempo é uma espiral
O Espaço tem as suas dimensões
Brilham relâmpagos, ribombam trovões
E nesta imensidão nua
Há luas para além da Lua
E sóis para além do Sol.
N. Afonso, 17/08/2012
O mundo é plural e distinto
Multiforme e complexo
É Um no Todo
E o Todo é Um
Estrelas e planetas
Asteróides e cometas
Galáxias e constelações
Respostas e interrogações
O Tempo é uma espiral
O Espaço tem as suas dimensões
Brilham relâmpagos, ribombam trovões
E nesta imensidão nua
Há luas para além da Lua
E sóis para além do Sol.
N. Afonso, 17/08/2012
sábado, 15 de setembro de 2012
Erosão e união
Erosão e união
Picam como cactos
Nas tuas mãos
As palavras ditas
E os gestos disfarçados
As linhas escritas
E os longos silêncios
Congelados por nós
Num ápice revelados
O receptáculo da dor
Essa tua pele fria
Agora enrugada
Pela erosão do tempo
A vida e a morte
Consumidas pela mesma chama
O hoje e o amanhã
Fundidos num só momento
O dia e a noite entrelaçados
O céu e a terra casados
Não olhes para trás
Ou ainda te convertes
Numa estátua de sal
N. Afonso, 13.09.2012
Picam como cactos
Nas tuas mãos
As palavras ditas
E os gestos disfarçados
As linhas escritas
E os longos silêncios
Congelados por nós
Num ápice revelados
O receptáculo da dor
Essa tua pele fria
Agora enrugada
Pela erosão do tempo
A vida e a morte
Consumidas pela mesma chama
O hoje e o amanhã
Fundidos num só momento
O dia e a noite entrelaçados
O céu e a terra casados
Não olhes para trás
Ou ainda te convertes
Numa estátua de sal
N. Afonso, 13.09.2012
quarta-feira, 12 de setembro de 2012
O simbolismo do coração
O Coração Irradiante e o Coração Ardente, por René Guénon
'' Ao nos referirmos a propósito da ''luz e da chuva'', às representações do Sol com raios alternadamente rectilíneos e ondulados, mencionámos que as duas espécies de raios se encontram também, de modo muito semelhante, em certas figurações simbólicas do coração. Um dos exemplos mais interessantes é o do coração figurando sobre um pequeno baixo-relevo de mármore negro, que data aparentemente do século XVI e provém do Convento Cartuxo de Saint-Denis d'Orques, tendo sido estudado por L. Charbonneau-Lassay.(1) Esse coração irradiante está colocado no centro de dois círculos sobre os quais se encontram respectivamente os planetas e os signos do Zodíaco o que o caracteriza de forma evidente com o «Centro do mundo«, sob a dupla relação do simbolismo espacial e do simbolismo temporal.(2) Essa figuração é evidentemnte ''solar'', mas no entanto, o facto de que o Sol, entendido no sentido ''físico'', encontra-se colocado no círculo planetário, tal como deve estar normalmente no simbolismo astrológico, mostra muito bem que se trata nesse caso do ''Sol espiritual''.
Vale a pena lembrar que a assimilação do Sol ao coração, na medida em que ambos têm igual significação ''central'', é comum a todas as doutrinas tradicionais, no Ocidente e no Oriente. Proclo, por exemplo, assim fala ao se dirigir ao Sol: ''Ocupando acima do éter o trono do meio, e tendo por imagem um círculo deslumbrante, que é o Coração do Mundo, tu preenches a tudo com uma providência pronta a despertar a inteligência.(3) Citamos de preferência esse texto, ao invés de muitos outros, em virtude da menção formal que se faz à inteligência. E, tal como já explicámos em muitas oportunidades, o coração é considerado também, antes de mais nada, em todas as tradições, como a sede da inteligência.(4) Aliás, segundo Macróbio, ''O nome Inteligência do Mundo que se dá ao Sol corresponde ao de Coração do Céu'';(5) fonte da luz etérea, o Sol é para esse fluído o que o coração é para o ser animado.(6) Plutarco, ainda, escreveu que o Sol, ''tendo a força de um coração, espalha e emite de si o calor e a luz, como se fosse o sangue e o sopro.(7) Encontramos nessa última passagem, tanto para o coração como para o Sol, a indicação do calor e da luz, que correspondem às duas espécies de raios que considerávamos. E se o ''sopro'' está aí relacionado à luz, é porque na verdade se constitui no símbolo do espírito, que é em essência a mesma coisa que a inteligência. Quanto ao sangue, é evidentemente o veículo do ''calor vivificante'', o que se refere mais em particular ao papel ''vital'' do princípio que é o centro do ser.(8)
Em certos casos, a figuração do coração dispõe de apenas um desses dois aspectos: a luz é naturalmente representada por uma irradiação de tipo comum, isto é, formada apenas de raios rectilíneos, enquanto que o calor é representado, de hábito, por chamas que saem do coração. Podemos além disso observar que a irradiação, mesmo quando os dois aspectos estão reunidos, parece sugerir, de modo geral, uma reconhecida preponderância ao aspecto luminoso. Essa interpretação é confirmada pelo facto de que as representações do coração irradiante, com ou sem distinção das duas espécies de raios, são as mais antigas, datando na maioria dos casos de épocas em que a inteligência era ainda tradicionalmente referida ao coração, enquanto que as representações do coração ardente se difundiram sobretudo com as ideias modernas que reduzem o coração a corresponder apenas ao sentimento.(9) E sabemos que, de facto, quase se chegou ao ponto de dar apenas este último significado ao coração, e de se esquecer inteiramente a sua relação com a inteligência. A origem desse desvio pode sem dúvida ser atribuída em grande parte ao racionalismo, na medida em que este pretende identificar pura e simplesmente a inteligência à razão; porém o coração nato está de modo algum relacionado à razão, mas sim ao intelecto transcendente, que no entanto, precisamente, é ignorado e mesmo negado pelo racionalismo. Na verdade, porém, a partir do momento em que o coração passa a ser considerado como o centro do ser, todas as modalidade desse ser podem num certo sentido ser referidas, ao menos indirectamente, ao próprio coração, inclusive o sentimento ou o que os psicólogos denominam ''afectividade''; isso torna possível ainda observar as relações hierárquicas que decorrem do facto de apenas o intelecto ser verdadeiramente ''central'' e das demais modalidades só terem um carácter mais ou menos ''periférico''. No entanto, na medida em que a intuição intelectual que reside no coração passa a ser desconhecida,(10) e tem a sua função ''iluminadora'' (11) usurpada pelo cérebro, nada mais resta ao coração que a possibilidade de ser considerado como a sede da afectividade. (12) Além disso, o mundo moderno deveria ver nascer ainda, como uma espécie de contrapartida do racionalismo, o que se poderia denominar de sentimentalismo, ou seja, a tendência de ver no sentimento o que há de mais profundo e mais elevado no ser, e de afirmar a sua supremacia sobre a inteligência. E é evidente que tal coisa, como tudo que na realidade constitui a exaltação do 'infra-racional'', só pôde produzir-se porque a inteligência tinha sido previamente reduzida à razão pura e simples.
Agora, se deixarmos de lado o desvio moderno que acabámos de indicar e quisermos, dentro dos seus legítimos limites, estabelecer uma certa relação do coração com a afectividade, deveremos considerar tal relação como resultado directo do papel do coração como ''centro vital'' e sede do ''calor vivificante'', ficando assim a vida e a afectividade coisas muito próximas entre si, ou mesmo inteiramente conexas, enquanto a relação com a inteligência é por certo de uma ordem muito diferente. Quanto ao mais, essa estreita relação entre a vida e a afectividade está expressa de maneira clara pelo próprio simbolismo, visto serem ambas, representadas sob o aspecto de ''calor''. (13) E é em virtude dessa mesma assimilação que, embora de uma forma muito pouco consciente, fala-se habitualmente na linguagem comum do calor do sentimento ou da afeição. (14) É preciso ainda notar a esse respeito que, quando o fogo se polariza nos seus dois aspectos complementares, a luz e o calor, estes, na sua manifestação, encontram-se por assim dizer, em razão inversa entre si. Sabemos, mesmo do ponto de vista da física, que uma chama é de facto tanto mais quente quanto menos ilumina. Do mesmo modo, o sentimento só é na verdade um calor sem luz. (15) Também no homem pode ser encontrada uma luz sem calor, como a razão, que é uma luz reflectida, fria como a luz lunar que a simboliza. Na ordem dos princípios, pelo contrário, os dois aspectos, como todos os complementares, estão juntos e unidos indissoluvelmente, pois sao constitutivos de uma mesma natureza essencial. É o que acontece também com o que diz respeito à inteligência pura, que pertence exactamente a essa ordem dos princípios, o que vem confirmar mais uma vez, como indicámos antes, que a irradiação simbólica sob a sua dupla forma pode ser-lhe integralmente vinculada. O fogo que reside no centro do ser é luz e calor ao mesmo tempo. Mas, se quisermos traduzir esses dois termos respectivamente por inteligência e amor, ainda que sejam no fundo dois aspectos inseparáveis de uma única coisa, será necessário para que essa tradução se torne aceitável e legítima, acrescentar que o amor em questão difere do sentimento ao qual se dá o mesmo nome, na mesma proporção em que a inteligência pura difere da razão.
Pode-se compreender facilmente, com efeito, que certos termos tomados da afectividade sejam, como tantos outros, passíveis de serem transportados analogicamente para uma ordem superior, pois todas as coisas têm de facto, além do seu sentido imediato e literal, um valor de símbolos em relação a realidades mais profundas. E é evidente que isso também ocorre, em particular, todas as vezes em que se trata do amor nas doutrinas tradicionais. Entre os próprios místicos, apesar de certas confusões invitáveis, a linguagem afectiva aparece sobretudo como um modo de expressão simbólica, pois, seja qual for entre eles a parte incontestável do sentimento no sentido usual dessa palavra, é no entanto inadmissível, apesar do que pretendem os psicólogos modernos, que não exista aí mais que emoções e afeições puramente humanas atribuídas, enquanto tais, a um objecto supra-humano. Entretanto, a transposição torna-se ainda muito mais evidente quando se constata que as aplicações tradicionais da ideia de amor não se limitam ao domínio exotérico e sobretudo religioso, mas estendem-se também ao domínio esotérico e iniciático. É o que ocorre em particular com os inúmeros ramos ou escolas do esoterismo islâmico e também com certas doutrinas da Idade Média Ocidental, em especial nas tradições próprias das Ordens da cavalaria(16), bem como na doutrina iniciática, aliás conexa, que encontra a sua expressão em Dante e nos ''Fiéis de Amor''. Podemos acrescentar que a distinção entre a inteligência e o amor, assim entendida, tem a sua correspondência na tradição hindu com a distinção entre Jnâna-marga (caminho do conhecimento) e Bhakti-marga (caminho da devoção). A referência que acabámos de fazer às Ordens da cavalaria indica, além do mais, que o caminho do amor é em particular mais apropriado aos kshatryias (guerreiros), enquanto o caminho da inteligência ou do conhecimento é naturalmente aquele que convém sobretudo aos brâmanes. Mas, em suma, trata-se de uma diferença que apenas se aplica à forma de considerar o Princípio, de acordo com a própria diferença das naturezas individuais, mas que não poderia de forma alguma afectar a indivisível unidade do próprio Princípio.''
(Publicado na revista Études Traditionnelles, Junho-Julho de 1946)
NOTAS:
1. Le Marbre astronomique de Saint-Denis d'Orques, na Regnabit, fev. 1924, [republicado no livro Le Bestiaire du Christ, cap X]. Esta gravura está reproduzida acima, ao lado do título deste estudo.
2. Existem também, na mesma figura, outros detalhes de grande importância do ponto de vista simbólico: assim, em especial, o coração tem uma chaga, ou alguma coisa com a aparência exterior de uma chaga, com forma de ura iod hebraico, o que se refere ao mesmo tempo ao "Olho do coração" e ao "germe" do avatar que reside no "centro", quer seja este entendido no sentido macrocósmico ( o que é aqui claramente o caso) ou no sentido microcósmico (v. Aperçus sur l’Iniciation, cap. XLVIII).
3. Hymne au Soleil, trad. de Mario Meunier.
4) É claro (e voltaremos a isso mais adiante) que se trata aqui da inteligência pura, no sentido universal, e não da razão, que é o simples reflexo dela na ordem individual e está relacionada ao cérebro; no ser humano, o cérebro está para o coração em relação análoga a que, no mundo, a Lua está para o Sol.
5) A expressão "Coração do Céu", aplicada ao Sol encontra-se também nas antigas tradições da América Central.
6) O Sonho de Cipião, 1,20.
7) Da face que se vê no círculo da Lua, 15,4. Esse texto e o precedente são citados em nota pelo tradutor a propósito da passagem de Proclo que acabamos de reproduzir.
8) Aristóteles assimila a vida orgânica ao calor, no que está de acordo com todas as doutrinas orientais. O próprio Descartes coloca no coração um "fogo sem luz", mas que para ele é apenas o princípio de uma teoria fisiológica exclusivamente "mecanicista”, como toda sua física, o que, bem entendido, nada tem em comum com o ponto de vista tradicional dos antigos.
9) É notável a esse respeito que, em particular no simbolismo cristão, as mais antigas figurações conhecidas do Sagrado Coração pertencem todas ao tipo do coração irradiante, enquanto que naqueles que não remontam além do século XVII, encontra-se o coração ardente de uma forma constante e quase que exclusiva. Aí está um exemplo muito significativo da influência exercida pelas concepções modernas até no domínio religioso.
10) Essa intuição intelectual é exatamente simbolizada pelo "olho do coração".
11) Cf. o que dissemos em outra parte sobre o sentido racionalista dado aos "luminares" do século XVIII, em especial na Alemanha, e sobre a significação correspondente da denominação Iluminados da Baviera
(Aperçus sur l'Initiation, cap. XII).
12) É assim que Pascal, contemporâneo dos inícios do racionalismo propriamente dito, já entende “coração” no sentido exclusivo de “sentimento”.
13. Trata-se aqui, naturalmente, da vida orgânica em sua acepção mais literal, e não do sentido superior no qual a vida, ao contrário, está em relação com a luz, tal como se vê em especial no início do Evangelho de São João (cf. Aperçus sur 1'Initiation, cap. XLVII).
14. Entre os modernos, considera-se também com grande freqüência que o coração ardente representa o amor, não só o amor no sentido religioso, mas também no sentido puramente humano. Era essa a representação corrente, sobretudo no século XVIII.
15. É por isso que os antigos representavam o amor como sendo cego.
16. Sabe-se que a base principal dessas tradições era o Evangelho de São João: "Deus é Amor”, o que seguramente só pode ser compreendido pela transposição do que falamos; e o grito de guerra dos Templários era: “Viva Deus Santo Amor”.
terça-feira, 11 de setembro de 2012
Buda sobre a ilusão do real
'' Sabei que todas as coisas são assim:
Uma miragem, um castelo de nuvens,
Um sonho, uma aparição,
Sem essência mas com qualidades que podem ser vistas.
Sabei que todas as coisas são assim:
Com a Lua num céu brilhante,
Num límpido lago reflectida.
Porém, para o lago, a Lua nunca se moveu.
Sabei que todas as coisas são assim:
São como um eco que provém
Da música dos sons, dos choros.
Porém esse eco não tem uma melodia.
Sabei que todas as coisas são assim:
Tal como um mágico faz ilusões
De cavalos, bois, carros e outras coisas,
Nada é aquilo que parece.
Buda, «Samadhirajasutra«, citado in «Ancient futures: Learning from Ladakh«, de Helena Norbert-Hodge.
terça-feira, 4 de setembro de 2012
Nunca é tarde
Nunca é tarde
É noite e tudo arde
Espelhos de mil cores
Deslizam a teus pés
As imagens desvanecem-se
Os conceitos são reduzidos a pó
A glória pesa como chumbo
A vingança é uma seta
Apontada ao teu coração
Espreitas pelo buraco da fechadura
E sais de casa à pressa
Lá fora a chuva cai
Solene e persistente
Sodoma e Gomorra
Mesmo ali ao lado
Marcham as hordas de Gog e Magog
Cinzas e ossos, já nada resta...
Ergues os braços ao céu
Suspiras pelo fim mas em vão
Ouves o murmúrio das ondas
E depois o som das trombetas
Nunca é tarde
Para começar
Quando o presente
É agora e sempre.
N. Afonso, 28.08.2012
É noite e tudo arde
Espelhos de mil cores
Deslizam a teus pés
As imagens desvanecem-se
Os conceitos são reduzidos a pó
A glória pesa como chumbo
A vingança é uma seta
Apontada ao teu coração
Espreitas pelo buraco da fechadura
E sais de casa à pressa
Lá fora a chuva cai
Solene e persistente
Sodoma e Gomorra
Mesmo ali ao lado
Marcham as hordas de Gog e Magog
Cinzas e ossos, já nada resta...
Ergues os braços ao céu
Suspiras pelo fim mas em vão
Ouves o murmúrio das ondas
E depois o som das trombetas
Nunca é tarde
Para começar
Quando o presente
É agora e sempre.
N. Afonso, 28.08.2012
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