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sábado, 9 de agosto de 2014

O erro monoteísta




"Monotheism is therefore a metaphysical error, since the world principle, which is outside the world, is beyond number, impersonal, indescribable, and unknowable. Above all, monotheism is dangerous because of its consequences, since it is a projection of the human 'self' into the divine sphere, replacing love and respect for the divine work as a whole with a fictitious character, a kind of heavenly king who governs human affairs, to whom the most absurd edicts are attributed. Intolerant, the so-called ”only god” is, in fact, only the god of one tribe. Monotheistic religions have served as an excuse for persecutions, massacres, and genocides; they fight each other to impose the dominion of their heavenly tyrant on others." 

Alain Daniélou, 'Shiva and the Primordial Tradition: From the Tantras to the Science of Dreams'

sábado, 12 de julho de 2014

Gotas de orvalho

"Both the victor
and the vanquished are
but drops of dew,
but bolts of lightning -
thus should we view the world."

Poema de morte de Ouchi Yoshitaka(1507-1551), composto pouco antes de cometer seppuku.


sexta-feira, 4 de julho de 2014

A vocação do Poeta

A vocação do Poeta

O homem quando é necessário
Pode permanecer só e sem temor, ante Deus.
A sua candura o protege
Não necessita braços ou astúcia,
Sempre que a ausência de Deus o ajude.

Friedrich Hoelderlin


domingo, 29 de junho de 2014

Esparsa ao desconcerto do mundo

Esparsa ao desconcerto do mundo

Os bons vi sempre passar
No mundo graves tormentos;
E para mais me espantar,
Os maus vi sempre nadar
Em mar de contentamentos.
Cuidando alcançar assim
O bem tão mal ordenado,
Fui mau, mas fui castigado:
Assim que, só para mim
Anda o mundo concertado.

L.V. de Camões

quinta-feira, 26 de junho de 2014

Palavras e silêncio

Palavras e silêncio

Há palavras cortantes e afiadas
Como a lâmina da espada de um samurai
Pesadas como toda a água dos oceanos
Tão leves como as pétalas de uma rosa
Palavras incandescentes,
Autênticas brasas vivas
Que são como fogo, fogo no gelo
Rios de lava penetrante
Há aquelas que dominam
Derrubam, aviltam ou humilham
As que glorificam, enaltecem
Valorizam e vivificam
Outras são desafiantes, obstinadas
Seduzem instantaneamente
E aquelas que são ocas, vazias,
Imersas em discursos opacos
Falsos e programados
Mas palavras há que são digníssimas
Ilustres, poderosíssimas
Sóis de Estio que fecundam
Rapidamente uma estéril planície
Palavras existem que subsistem sem rosto,
Nome ou identidade
Outras são meros rabiscos
Escritos num vulgar papel branco
Há palavras que são murmúrios das águas:
Secretas, enigmáticas, indecifráveis
Não sei se haverá palavras tais
Que traduzam o indizível do silêncio
O impenetrável do silêncio
Que valham mais do que o silêncio
Que substituam o silêncio
Que sejam mais fortes do que o silêncio.

Artur Granja

terça-feira, 17 de junho de 2014

Efemeridades

Efemeridades

Ouço essas vozes na praça pública
Glossolalia desordenada e caótica...
De megafone levantado, mentira
E fingimento de mãos dadas
Gritos estridentes abafados
Pelo insano coro das multidões
Anonimato sem destino, efémera fama
Exibida na televisão em horário nobre
Púdicas dores privadas emergem,
Insolente exaltação pública
Que se afunda, inevitavelmente,
Individualidades destruídas
A celebridade ofertada
Em bandeja de fel
Modernidade crudelíssima
Ínfimas e míseras paixões
Aceleradas por necessidades turvas
E inconsequentes,
Travadas a qualquer momento
Sem mérito nem glória
E assim observo estes olhares sem futuro
Rapidamente esquecidos
Por esta putrefacta
Sociedade decadente sublimada!

Artur Granja
 

sábado, 7 de junho de 2014

Lugar da memória

Lugar da memória

No velho átrio da nossa mente
Repousam os escombros
De certas memórias
Erguem-se lentamente
São estátuas de mármore
Esculpidas num mar vítreo
Soberanas, primevas e silentes
Latentes, talvez até adormecidas
Despertarão um dia, audaciosas
Lembrando gatos imprevisíveis
Para saltarem sobre nós, múltiplas
Variegadas, martelando incessantemente
Em dias de tormenta ou mesmo
Nos de plena tranquilidade,
Em terra e junto ao mar,
Na vastidão do eu
Elas dormem e mais tarde acordam
Por vezes parecem morrer
Mas sempre ressuscitam.

Artur Granja/N. Afonso

sábado, 24 de maio de 2014

Antes do fim

Antes do fim

Vede: agora dominam os insurrectos!
Com desmedida empáfia
Escarnecem da vida e da morte
Do alto das suas solenes cátedras
Num ímpeto criador
Eu, como um falcão,
Lanço-me em vôo picado
Sobre os conceitos imutáveis
Que o Tempo ainda não manchou
Olho as cidades em cinza, ideias-brasa
Já antes purificadas pelo fogo
Escuta -este silêncio que te fala-
Penetro na noite como
Um ladrão furtivo
As tuas mãos macias e sedosas
Acariciam os meus cabelos
E dardejantes pedaços de gelo
Desfazem-se de encontro
Aos meus ígneos lábios
Por fim, os caminhantes encontram-se
Naquele ermo lugar
Onde não há mais medo
Temor, ira ou impotência
Aí jazem felizes os ousados
Tranquilamente e sem alarido
Ou qualquer outro resquício
De humanos atributos.

Artur Granja/N. Afonso

segunda-feira, 12 de maio de 2014

Antonin Artaud



Antonin Artaud

Poeta visonário de olhar penetrante
Génio louco, diriam outros
Uma voz que nos fala
Dos confins do  mundo
Inquietante, perturbador, misterioso.
Pária do surrealismo por mérito próprio
Anarquista por natureza
Tudo isso e muito mais
Sempre lúcido na sua loucura
De asilo em asilo
Rodez já te esqueceu...
Entre os Tarahumaras não te perdeste
Deambulaste furiosamente pela vida,
Ó filho do Mediterrâneo
Fizeste o teu próprio caminho
Remaste sempre contra a maré
Tu, destruidor de ilusões
Persistente iconoclasta 
No palco foste tu próprio
Intenso, verdadeiro, rebelde
Daqui te saúdo, Artaud!
Que caia sobre ti
Um último raio de verdade.

Artur Granja/N. Afonso

sexta-feira, 9 de maio de 2014

Rosa-símbolo



Rosa-símbolo

Vem
Vem até mim, rosa secreta
Lenta e silenciosamente
Como só tu sabes
Acolhe-me no teu regaço
E murmura o nome dela
Exalas um odor suave e discreto
Tu, símbolo indiscutível do Amor
Outros cantar-te-ão aos ouvidos
Intensas odes e joviais melodias
Não sei o que pretendes de mim
Secreta rosa, brilhante, altaneira
Não te dedicarei odes
Ou outras melodias
Quando sussurrares o nome dela
Então ela estará longe, distante
Mas mais perto do que nunca
Isso mais ninguém sabe, apenas tu
Só tu foste inconcebivelmente 
Criada para guardar segredos
Suprema confidente
Nisso és inigualável
Quer sejas branca, vermelha, amarela
Tu, surpreendente rosa-símbolo!

Artur Granja/N. Afonso

terça-feira, 6 de maio de 2014

Primavera



'' Não são as cores variegadas, os tons graciosos e o ar macio o que tanto nos entusiasma na Primavera. É o tranquilo espírito vaticinador de infinitas esperanças, um pressentimento de muitos dias felizes, da próspera existência de tão diversas naturezas, a suspeita de sublimes florações e frutos eternos e a obscura simpatia para com o mundo social que se desdobra''.

Novalis, in« Fragmentos de Novalis«, tradução de Rui Chafes, Ed.Assírio&Alvim

terça-feira, 29 de abril de 2014

Soneto da neve fria

Soneto da neve fria

Pões as mãos na neve fria
Ela é pura, dura, inclemente
Se a alvorada é escura
Por certo não te alumia
Até que o Sol te desmente
Quando transforma esse escuro dia
Num outro solarengo e altivo
Dessa manhã não mais ficas cativo
Porque as Trevas foram
Dissipadas pela Luz
E agora já não te seduz
Esse sombrio amanhecer
Mas sim uma nova noite
Que irá um novo dia anteceder.

Artur Granja/N.Afonso

sexta-feira, 25 de abril de 2014

Em mim vês a estação em que se inclina

Em mim vês a estação em que se inclina

''Em mim vês a estação que se inclina
a folhagem sem cor, já pouca, em ramos,
lá onde os frios claustros são ruína
e os pássaros tardios escutamos.
Em mim vês lusco-fusco de tal dia,
quando a oeste o sol se queda mudo
e a noite a pouco e pouco o abrevia,
segundo ser da morte a selar tudo.
Em mim vês que esse fogo bruxuleia,
cinza da juventude que caiu,
como o leito de morte em que se alheia,
onde o consome o que antes o nutriu.
Isto vês, para amar mais te fazer
amar bem o que em breve vais perder.''

(William Shakespeare, tradução de Vasco Graça Moura)


quarta-feira, 9 de abril de 2014

Oráculo


'' O oráculo
 trespassa tudo,
o fim
é o reflexo do princípio.

Como se
um espelho
tivesse duas caras
e ambas vissem.

Na intersecção dos distantes 
evidencia-se
o enigma.''

(Ernst Meister)